sexta-feira, 29 de junho de 2012

De rosto fechado

outros olhos
outro cabelo
outros pés e dedos.

(...)

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.

(BUKOWSKI, Charles. Outra Cama. In: O amor é um cão dos diabos)

Sonhos...

E se for só uma estrelinha perdida, onde há de encontrar seu caminho?

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não era hipocrisia!

Não que fosse hipocrisia. Era mais um não se reconhecer. Era algo como escrever sem ler, desejar sem ver, saborear sem comer. Não era desistir de si, mas buscar em um outro algo que falasse a respeito de seu eu. Porque ela própria não se via, não queria se ver. Se desejasse ser a si mesma, falaria por si e não haveria problema, mas escrevera em terceira. Escondera-se dos sonhos, perdera-se na vida e desistira. Aceitara, sem desejo, um papel que desconhecia em uma peça que não vira com um texto que não lera. Mas subira em palco e vivera.

Sonho de teatro X teatro de sonho ?!

"Como se fosses tu, assim entra no teatro e te chamam dentro do sonho e te chamam para fazer o papel do sonho de alguém que não veio, e dizes que nunca viste a peça e nunca leste o texto e nada sabes de marcações intenções interiorizações e te dizem que não importa porque é só um sonho e um sonho não precisa de ensaio". - Caio Fernando Abreu, in "Eu, tu, ele", Morangos Mofados.

domingo, 24 de junho de 2012

Que se danem os nós

"Vim gastando meus sapatos Me livrando de alguns pesos Perdoando meus enganos Desfazendo minhas malas Talvez assim chegar mais perto Vim, achei que eu me acompanhava E ficava confiante Outra hora era o nada A vida presa num barbante Eu quem dava o nó Eu lembrava de nós dois mas já cansava de esperar E tão só eu me sentia e seguia a procurar Esse algo alguma coisa alguém que fosse me acompanhar Se há alguém no ar Responda se eu chamar Alguém gritou meu nome Ou eu quis escutar Vem eu sei que tá tão perto E por que não me responde Se também tuas esperas te levaram pra bem longe É longe esse lugar Vem nunca é tarde ou distante Pra eu te contar os meus segredos A vida solta num instante Tenho coragem tenho medo sim Que se danem os nós" - Ana Carolina, in Que se danem os nós.

domingo, 17 de junho de 2012

Um novo sol

Era como abrir a janela e ver o sol após vários dias de chuva. O sol continuava lá, a sua ideia de sol permanecia a mesma e ela conhecia um sol na forma como infinitamente ele se apresentou na infância liberta, correndo em meio a árvores e galinhas no quintal na fazenda. Era um sol, um sol laranja-fogo, amarelo-vibrante. Era um sol e somente isso. Não precisava aparecer todos os dias porque sua presença era uma ausência-presente. Mas ainda assim o desejara. Desejara ver o sol em uma manhã de domingo emburrada. Ou em uma tarde de segunda-feira sem aula. Era uma luz estranha, uma nova vibração, como se após vários dias o sol não fosse mais o mesmo, como se fosse outro e outro, assim, todos os dias ela esperaria.

Precipícios

Em dias estranhos atravessa nuvens. Coleta estrelas desavisadas, cria novos caminhos. Desejando ser maior e ao mesmo tempo mais infantil. Olhos brilhantes, sorriso aberto. Era uma menina linda. Não sentia medo, nem culpa, nem desejara outra coisa que não fosse aquilo que já havia docemente dentro de si. Nem mais um passo deu pelo caminho, nem mais um pedaço de fins que já foram. Contou quantas nuvens, pegou tantas outras estrelas e continuou buscando fins de início em precipícios.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Caminhos perdidos

Você está em seu próprio mundo, sem luz, sem ar, sem futuro. Perdida em suas próprias palavras, pisando em espinhos.

domingo, 10 de junho de 2012

Pequenas memórias

"Há muitas coisas em minha vida pedindo explicações. De muitas, lembro-me bem. Mas, são as escondidas que nos atormentam. As que ficam perdidas não sei em que imobilidade, agarradas às paredes como hera, guardadas em fundo de gaveta de cômodas velhas, refletidas em caixilhos, esquecidas em álbuns fotográficos, escondidas dentro de nós". - Andrade, citado por VENANCIO. In Pequenos espetáculos da memória.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mulher maior.

Assim fui uma mulher maior. Maior do que a vida. Cicatrizes e experiências. Quebrando e reconstruindo. Rasgando e recosturando. Digerindo e reciclando. Acrescentei balas à minha audácia. Espadas à minha paixão. Uma receita para cada limite da vida. Ultrapasso. E uma camada a mais atravessada. No final, sou uma mulher maior. A gente passa por muita coisa para chegar lá. -Santiago Nazarian, in A morte sem nome.

domingo, 3 de junho de 2012

Mistério profundo

Você está Fechada em seu próprio mundo Sem luz, sem ar, sem futuro Se eu deixar Vai mais fundo Vai fundo Eu não vou te alcançar - Nenhum de Nós, in Mistério Profundo

Sozinha.

Um minuto de silêncio. Mais um dia de solidão. Deixem-me sozinha, deixe-me aqui. Quero não precisar falar, não precisar cantar. Deixem-me sozinha, para pensar.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Disse, diga, que não.

Como nunca olharam? Como nunca perguntaram o que foi? Como nunca disseram que acabaria? Como voltariam? Como me diziam para comer e fechar a boca? Como me induziam a sorrir? Como engolir o choro? Como respirar com a mão em minha garganta? Sufocando-me, preenchendo-me, sufocando-me com afetos indiscretos, como palavras não-desejadas... Sugando-me a alma e o coração, mentindo com mentiras descaradas. E eu calando. Consentindo, dizendo que tudo ficaria bem, dizendo a mim mesma que eu não era aquilo, que não queria que fizessem nada comigo, que não era justo, que não deveria continuar assim, que eu precisava de ajuda, que não, não, não, não.

Silêncio, que dizias?

Hoje eu sei, me amavam. Mas nunca me disseram. Com o olhar transbordado em problemas não me viam, pois eu era pequena e translúcida demais. Nunca disseram que estariam comigo, por ali, caso eu precisasse. Nunca me contaram como meus cabelos eram macios, o quanto meus olhos eram verdes e bonitos. Eu pensava que não me viam. Depois, eu própria me negligenciava. Eu me deixava escorrer pelas mãos de todos que me tocavam, me apertavam, esmagavam e deixavam-me sozinha pelo chão. Fui um cordão escorregadio e encardido. Fui um pedaço de papel que voou, voou longe, longe, querendo ser pássaro, mas sendo folha seca em primavera.