sábado, 2 de outubro de 2010

Porque sei que é silêncio...

Chorando. Foi assim que iniciou aquela carta. Mais uma para a coleção "Aquelas que jamais enviarei". Mas não era apenas mais uma carta de amor. Amor? Não, não... Tudo menos isso! Era de dor, desabafo, desamor. Nunca de amor, pois esta era das muitas histórias que queria esquecer. Manter-se longe dos romances, melados beijos indissociados de lágrimas compulsivas, que jamais lhe agradaram. Os outros sim, buscavam chorar, mas não ela que era uma garota forte e madura. Independente! Palavra bonita...
Depois dos sonhos perdidos na infância não se viu mais derramando lágrimas em vão. A mãe se fora cedo e a defesa manisfestava-se através do muro intransponível entre si e o resto do mundo.
Escrevera poemas para libertar a dor. Não que uma gartoa de 17 anos soubesse exatamente o significado da dor, mas chamava assim aquele aperto no peito, que sentia todas as vezes em que olhava os cadernos coloridos em verde, branco e preto, e que agora eram apenas letras. Letras escuras e sem som.

domingo, 26 de setembro de 2010

É primavera...


Época na qual os pássaros saem para cantar, os beija-flores se encantam com as flores e vida transborda pela janela.

Que sentido?!

As pessoas às vezes são muito egoístas. Como elas podem surgir sem avisar, entrar em nossa vida sem pedir licença, ir se aproximando, se aproximando a ponto de chegar ao coração e por ali ficar, rir junto, chorar junto, consolar, conversar?! E aí, de repente, elas não querem mais. Mas que sentido faz? Elas desistem e saem, deixando todo o lixo, todas as lembranças. Dizem que não ficarão mais, mas que isso não é uma escolha, ou uma alternativa. Elas não pedem para ir embora, elas simplesmente vão. E o que fica é um imenso vazio, um vácuo do tamanho do mundo que parece impreenchível, intransponível; mesmo que saibamos que amanhã mudará a estação e novas flores crescerão sobre ele.

Exija!

[...] faça rizoma e não raiz, nunca plante! Não semeie, pique! Não seja nem uno nem múltiplo, seja multiplicidades! Faça a linha e nunca o ponto! A velocidade transforma o ponto em linha! Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um General em você!Nunca idéias justas, justo uma idéia [...]. Tenha idéias curtas. Faça mapas, nunca fotos nem desenhos. Seja a Pantera Cor-de-Rosa e que vossos amores sejam como a vespa e a orquídea
[...] (DELEUZE E GUATTARI)

sábado, 25 de setembro de 2010

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde