sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Das voltas que a vida dá

 Fiquei um tempo sem passar por aqui. Dois anos. Pois é, a gente acha que passa, que foi para outro lugar, que as coisas já mudaram tanto que não faz nem sentido, mas nos encontramos com nosso próprio eu em uma versão desatualizada ali na próxima esquina.

Hoje a ansiedade está batendo rasgando. Está saltando do peito. Está difícil de aguentar. "Vou tomar um remedinho, porque...". Porque anda doído mesmo. Hoje eu subi no ônibus e só fiquei com vontade de chorar. Coloquei o óculos escuro para não chamar muita atenção. Fiquei com medo, com a garganta apertada. Com aquela certeza de que catástrofes vão seguir acontecendo. Como já aconteceu. Que ia ter uma assalto. Que eu ia reagir. Que meus pais iam vir para levar meu corpo inerte, peso morto, para casa.

domingo, 1 de agosto de 2021

Ausências.

Era certamente um domingo. Possivelmente um dia quente, de verão. Eu lembro porque me recordo bem do calçãozinho jeans soltinho sobre as coxas grossas. Lembro também dos braços rechonchudos, as curvinhas bem marcadas, mãozinhas firmes no guidão. Havia muitos sorrisos naquelas cenas. Meus, seus. Você corria um pouco comigo, depois me soltava e eu seguia sozinha, você ia atrás gritando, sorrindo comigo, me incentivando a seguir. E eu ia até onde podia, até onde precisava fazer a curva, e então eu freava e precisava voltar carregando a bicicleta, ainda correndo. Quem diria que a vida seria a repetição dessa cena tantas outras vezes… Você atrás, indo comigo até um certo ponto, depois eu seguindo sozinha até onde consigo, mas eu nunca fui de insistir o bastante nas curvas e então precisava descer, e voltar para você. Essa é a lembrança mais vívida que eu tenho de você, daquele período da vida em que a gente ainda sorria com certa frequência.

Quinze anos depois. Outro pedaço de você. Nas fotos você sorri depois do fotógrafo insistir muito. O meu sorriso já não tão sincero, depois de centenas de outras fotos sozinha. É minha formatura e você passou uns dias antes reclamando da viagem que ia precisar fazer. Mas lá você sorriu um pouco e eu vi nos seus olhos que você se emocionou também. Nós ensaiamos a valsa na semana anterior e no dia você fez tudo certinho. Parecia orgulhoso, mas já naquela época eu tinha dúvida do quando de você havia ali. Você nunca foi um pai do tipo presente, mas aquilo ali era algo um pouco diferente.

Oito anos depois e chegamos aqui. Eu olho para você e te vejo nas ausências. Às vezes me pego olhando tão firme nos seus olhos, querendo me certificar que por trás desse castanho-claro dos seus olhos, desse tom de fogo que só você tem, eu vou te ver como eu via um dia, naquela lembrança da infância. Teve um dia em que eu estava com a nona, sentada com ela, sozinha, e parecia que eu estava sozinha mesmo ali. Foi a nossa despedida. Eu tentava falar com ela, insistia nas perguntas, inútil, porque ela não me respondia. Diziam que também ela não nos reconhecia. Mas teve um momento em que ela me olhou firme e por trás daquele verde-escuro dos olhos aquosos dela, tão parecidos com o meu que eu me via, eu a encontrei. Ela tocou minha bochecha com o indicador direito e sumiu de novo. A gente não tinha muitas coisas em comum, assim como não temos eu e você, mas vez e outra a gente se encontrava pelos cantos, nas esquinas. Como naquele meu desejo antigo e que você nunca conseguiu responder direito, de que você se cuide mais, de que você se ame mais, para que eu possa te amar por mais tempo também. Para você me dar mais chances da gente se acertar um dia. Eu sei que você sabe como é. É como quando a gente divide a panela de pinhão, “um pra você, dois pra mim”. O gosto enfarinhado do nosso fruto preferido. A gente não tinha muitas coisas em comum, mas vez e outra a gente se encontra pelos cantos, nas esquinas. Eu sei que no fundo você sabe que eu tenho medo de perder. De perder esse gosto que me vem à boca toda vez que eu falo ou penso – pinhão. Tenho medo de um dia não te encontrar nem mais na luz que de repente reflete no fundo dos seus olhos nos dias claros. Eu tenho medo de te perder no meio da sua loucura, de me perder no meio da sua loucura, de todos nós nos perdermos no meio da sua loucura. Uma vez sonhei com você, o sonho não foi bem esse, mas a sensação: era você, partido em pedaços, e eu juntando os cacos para te olhar e ainda conseguir me ver nos remendos que sobraram de você. A gente ainda continua sendo a gente depois de se partir em tantos pedaços?

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Desacontecimentos

Eu nunca ficaria em uma casa por mais do que alguns anos, numa mudança sem fim. Para cada uma arrasto caixas que jamais abro, memórias que escapam do lacre e me assombram a noite. e um dia bato a porta e me vou para outra, com ainda mais caixas. De certo modo, sou uma moradora de rua com casas temporárias, carregando pela vida uma bagagem da qual não consigo ou não quero me livrar.
E talvez, nesse não lugar, entrecasas, eu tenha vivido na infância uma quase-morte. Literal, como fui, sou. Mais ainda antes das palavras. Ou talvez fosse apenas uma bactéria glutona e indiferente do jardim selvagem que me habitava, mas que eu desconhecia (p. 48).

---------------------**----------------------

Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena eu tenho muita raiva - e quase nenhuma resignação. (...) Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar (p. 61).

---------------------**----------------------

Escolhi viver sem fronteiras definidas, noções não me interessam, limites só me importam os da ética. Tenho um coração andarilho, um corpo mutante, uma mente transgênera. Sou irmã, mãe, filha, homem, cúmplice, bicho bicho, bicho humano, árvore, erva daninha, pedra, rio. Sou palavra em palavras. Mas o meu corpo que viveu e que amou e que gozou e que foi marcado, este tem um lugar (p. 69).

---------------------**----------------------

Como todos que se sabem frágeis, Lili ocultava sua delicadeza para que não a adivinhassem quebrável (p. 89).

---------------------**----------------------

A escrita foi se tornando dolorida. Dizia de uma criança que chutava o cimento. Que se sentia encurralada. Que questionava a existência de Deus. Que sangrava com a desigualdade do mundo. Tão calada sobre o essencial, eu agora gritava. Naqueles dias não importava se era bom ou ruim o que eu escrevia. Importava transformar a dor em marca. Forjar um corpo para além do corpo, na letra (p. 113).

---------------------**----------------------

Aos poucos percebi que só poderia me colocar diante do outro, de todos os outros, como eu era. Quebrada. Com toda a integridade das minhas fraturas, das quais finalmente fiz um vitral. Uma quebrada diante de quebrados, esse é o pacto em meus encontros públicos. (...) "Eu quase me desmancho". Quase. Minha força é, agora eu sei, saber-me quebrada (p. 125).


- Eliane Brum, in Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras, 2017.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Viajei, viajamos.

Essa não é a primeira vez que eu junto uma porção de coisas e saio por aí. Não foi a primeira e certamente não será a última. Às vezes a viagem é mais longa e tem mais bagagem, não tem prazo para acabar, é uma tentativa de recomeço em um outro lugar. Um novo rumo profissional, uma nova organização pessoal. Outras vezes, porém, essa viagem exige menos, só uma mochila cheinha nas costas, um mesmo tênis para uma semana inteira - no final da viagem ele já tá sabendo dos caminhos sozinho -, o mesmo casaco em todas as fotos, a mesma cara meio durona porque eu sei que sou uma mulher viajando sozinha e nem sempre as pessoas vão facilitar qualquer coisa para mim. Às vezes, no começo, parece que essa viagem é uma tentativa de por alguns dias não precisar falar com ninguém, ficar quieta, sozinha. Sei que você tem desses dias também. E tudo bem, porque a gente é um pouco assim, não é? Humano. Que se cansa de atingir metas, de responder expectativas, de ser legal com todo mundo o tempo todo, de sustentar sorrisos que nem sempre são muito sinceros, já que o dia a dia anda doendo. Às vezes a gente quer dar um tempo da vida mesmo continuando na vida, entende? Nessa viagem eu não sabia bem o que eu queria - era mais como uma promessa, algo que eu disse que faria antes de ir embora, mais uma vez. Foi Lourival quem me explicou, o guia turístico que se ofereceu para me contar a história da Praça Minas Gerais de Mariana, e para quem eu paguei pelo passeio muito menos do que o justo e do que gostaria de ter pago. No finalzinho de seu trabalho, quando nos despedíamos, ele me disse “espero que você encontre o que veio buscar”. Ah, Lourival, seu danadinho! Você me pegou, porque, afinal, o que tinha ido eu buscar no caminho do ouro de Minas Gerais?

Eu não sabia bem o que tinha ido buscar, mas achei que devia guardar aquela pergunta em algum cantinho do coração, para retomar depois. Para tentar, fazer um esforço, responder. E, não sei, talvez devesse começar perguntando: você já se sentiu uma pessoa destruída? Porque hoje eu me sinto uma mulher destruída - e preciso de ao menos um pouquinho de compreensão para que possamos continuar.

Mas eu não sou apenas uma mulher destruída. Eu sou uma mulher destruída que juntou seus pedaços pelo chão e que agora coloca uma mochila nas costas e os cacos nos braços e sai à busca de um porto para se reconstruir. Foi aí que entrou essa viagem, que teve uma coisa meio mística. Falei pouco e degustei muito do que as paisagens, climas e pessoas estavam me dizendo sem me dizer. Mas também não me recusei a qualquer coisa. Talvez a melhor parte de viajar sozinha seja que a gente está muito mais aberto ao que pode acontecer. Foi assim que em Ouro Preto eu conheci o Valter, em frente à Igreja de São Francisco Xavier. Ele tinha suas delicadas obras expostas na murada. Era segunda-feira, bem cedinho, um frio danado. Encolhida dentro do meu poncho peruano passo por ele e o cumprimento. Ele puxa assunto, fala das suas obras. Eu, me aproximo, dou atenção, porque eu sei como é ser artista e não sentir que as pessoas estão muito interessadas na única coisa que você acha que sabe fazer bem. Eu me aproximo, paro, escuto. Teço um comentário ou outro. Ali decidi que ia comprar algum souvenir religioso para a minha mãe - eu não tinha comprado nada nessa viagem, porque não era para levar nada dela além de memórias, e eu decidi ir em um momento financeiro bastante delicado também. Mas eu queria fazer aquilo pelo Valter e pelo trabalho dele. Eu acho que ele merecia. O problema foi que de novo eu senti que me saí melhor naquela nossa pequena relação do que ele. Ele me vendeu um lindo relógio com desenhos de Ouro Preto esculpido em pedra sabão - achei que ia ficar bem na cozinha da minha mãe, mais do que mais um santo, já que eu tinha dado outros de presente do México para ela. Mas, junto com o relógio, eu levei para casa um afago no coração. Valter disse que eu era daquelas pessoas que eram difíceis de aparecer, mas que de vez em quando aparecem. Simples desse jeito. Eu tive vontade de chorar. Mas engoli o choro e então lhe disse que esperava que a gente encontrasse gente que nos fizesse sentir assim com frequência, para que não deixássemos de acreditar na vida. Eu fui mais sincera com ele do que costumo ser com desconhecidos. E então lembrei de uma conversa com uma amiga na semana anterior, na qual eu dizia que gente menos “estudada” vivia melhor que nós, pseudo intelectuais, acadêmicos donos de um suposto saber, e complexificadores da vida. Eu percebo também que ultimamente eu tenho me sentido especialmente atraída pelas pessoas simples. Sem construções de discurso complicadas, cheias das sintaxes, das metáforas. Gente que diz o que quer dizer de forma direta, sem rodeios, mas com delicadeza. Gente assertiva, sabe? Eu não acho que sou mais uma pessoa assim. Esses dias me peguei dizendo em análise que havia trocado meu antigo blog de poesia-simples-existencial pela escrita para a academia, “esse escrever difícil porque não é mesmo para ninguém entender” (sic.). E é engraçado porque quanto menos eu acho que me aproximo da pessoa que eu gostaria ou me orgulharia de ser, mais eu invisto nisso. Mais eu me esforço - sim! Em ser quem eu não quero ser! Não é por ingenuidade. Eu faço análise, eu me penso, me coloco em cheque, me tiro com frequência da zona de conforto, me abro para experiências novas sem garantias de que serão prazeirosas. Eu lido também com o desprazer. Eu dou suporte para ele porque sei que é importante de ser vivido também, para que possa aprender mais sobre mim, entender os meus porquês. E no meio disso tudo, eu ainda acho que invisto muito em quem eu não quero ser? E se eu não largar desse osso porque na verdade é quem eu quero mesmo ser? Sei que é difícil de entender porque é também de se explicar. Nem sempre a gente é capaz de se explicar. Nem sempre a gente é tudo aquilo que sonhou pelos sonhos dos outros, justamente porque não eram nossos, eram dos outros - e só com muita dificuldade a gente entende que precisa entender isso. Mas, aos poucos a gente também vai aprendendo a se respeitar e a respeitar o tempo que precisa para aprender. Como me ensinou o Valter, a gente entende que às vezes a gente demora para se parecer de verdade com quem é, mas que mais cedo ou mais tarde esse eu de verdade aparece e é ao mesmo tempo a coisa mais bonita e a coisa mais simples que já se viu. E se não der para descobrir sozinho, tudo bem também, porque sempre tem alguém para ajudar. Além do Valter, dessa vez eu tive também uma amiga muito querida que várias vezes já foi meu pé no chão, quando eu voo alto demais e não consigo ou não quero voltar. Embora a ache tão jovem, essa menina tem uma sensibilidade do tamanho do mundo - deve ser a alma de artista - e me fez entender que dessa vez, enquanto eu me perdia entre as ladeiras de casas coloridas de São João Del-Rei, na verdade eu me encontrava - “talitarteando” por aí.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Seguir no caminho ou Todo dia um 7 a 1

De novo me perguntaram sobre como eu estou. De novo eu respondi com displicência. Que não é nada, que é cansaço. Que é só tédio, ou qualquer coisa assim. Me sinto perdendo o repertório das palavras. Será que, se eu parar de falar, vai levar muito tempo para perceberem? Afinal, sequer tem algo de novo nos silêncios. Não tem nada de novo na apatia. Eu sequer consigo chorar.

Hoje teve algo de novo porque havia um certo incômodo, uma ponta de ansiedade. Não aquela daqueles dias, mas tem algo mexendo, sabe? Tem algo tentando sair, e é bem quando eu acho que devia parar com a análise, dar um tempo, seguir sozinha, sabe? Essa resistência a mudar é sempre uma tentativa de boicote, de sair do lugar de quem não se responsabiliza pelo que sabe sobre si. Porque eu sei, mas queria não saber. Porque eu vejo e queria não ver. Eu me encontrei perdida nos meus silêncios e eu tive medo de me seguir.

Eu queria me rasgar, eu queria me jogar em um canto e desaparecer. Eu queria sumir - será que se eu ficar aqui quietinha de repente eu sumo? Eu queria gritar. Eu tenho vontade de correr e de gritar, faz dias. Eu queria me esquecer de quem eu sou - se eu me perguntar muito, como Clarice, eu esqueço? Queria ser menos forte, pra desistir mais cedo. Queria ter menos medo pra jogar mais alto e perder com mais intensidade - queria que fosse uma perda dessas, de 7x1, sabe? Dessas que não adianta mais fazer nada, a não ser não deixar piorar muito. Mas se está tão ruim, um a mais, um a menos, que diferença faz? A gente vai continuar - e até quando?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dois anos e o que há para comemorar?

São dois anos. Dois anos e haviam me dito que eu poderia comemorar, como se comemoram as festas de aniversário, sabe? Ano passado a gente fez bolo, apagou velinha, se abraçou e todo mundo chorou sozinho, cada um no seu quarto, no final do dia. Foi bonito, mas na verdade não tem muito cara de aniversário. Com certeza tem uma certa marca, algo que fica desse um ano inteirinho que passou. As conquistas: a volta para Niterói, a dor zero, o parar de usar medicação pra dormir e pra não se sentir o tempo todo triste, o chegar um pouquinho mais tarde da noite sozinha em casa, o ritmo quase totalmente normal. Mas sabe o nó na garganta? Continua. Esses dois anos me deram medidas suficientes para entender que eu não tenho nenhuma consequência direta do que aconteceu, que aliás, até indiretamente é difícil de pensar no que eu ainda estou perdendo. Só tem esse nó na garganta. É só esse nó. Só que o problema é que de vez em quando ele fica apertado demais, ele cria umas amarras que parece que nunca mais vai soltar. Ele aperta principalmente com os sonhos, esses suspiros do inconsciente que vêm nas noites que antecipadamente já dava para sentir que não seriam tranquilas. E aí, quando enrosca desse jeito, é bem difícil de soltar. Dá vontade de sair gritando que ainda tá doendo e que não é pouco. Que ainda tá dolorido que nem doía na pele da primeira vez. A diferença é que a gente fica nesse ciclo louco de se repetir e o que dói é no fundinho do coração, porque ele não se acalma, ele fica chorando sem parar, e sabe quando você vê que alguém que você gosta muito está muito triste e você quer fazer ele se sentir bem? E aí você se esforça o máximo que pode para ele ficar bem, tenta e tenta, insiste até você também ficar triste? É um pouco disso. O coração não consegue ficar quietinho, ele também quer gritar e chorar cada vez mais e mais forte, pra lembrar que ele tá ali e que ele precisa que olhem para ele. Ele quer colo, mas nem sempre você consegue dar, porque são muitas coisas para se fazer ao mesmo tempo, e a vida tá cobrando atenção para as outras coisas também, então você tem que olhar pra ele, olhar de verdade e com atenção para aquela carinha sentida, para aquela dor que não cessa e dizer que ele precisa esperar mais um pouquinho, que tem que ter paciência, que tem que ser paciente. Dois anos e sobre isso nada mudou. Sobre isso, ainda fazemos ele esperar, e nada podemos comemorar.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Da felicidade

A minha felicidade é tão grande que sinto vontade de morrer!
Ela: Mas morrer por quê?
Ele: Porque até na mais perfeita felicidade já se encontra, em germe, a infelicidade. A felicidade consome-se como uma chama que, cedo ou tarde, terá de se apagar, e este pressentimento anula-a no preciso momento em que é mais intensa.

- Copiei e colei de algum lugar e não lembro mais de onde. 

sábado, 17 de novembro de 2018

Fissura

Tive pesadelo esses dias. Tinha um rosto de menino com os cabelos cheios, cacheados, bem sujos. Ele tinha um sorriso de moleque. Era quase bonito. Ele me esfaqueava sorrindo. Eu via a faca descendo do peito em direção ao seio e eu colocava a mão na fissura, logo depois que ele tirava a faca, e gritava. Peguei o celular, era 4h48 da manhã, e eu não consegui mais dormir. Levantei ler.
Fazia um tempo que essa lembrança não vinha, mas verdadeiramente eu acho que esperava que ela voltasse e novamente se desfizesse, com o tempo. E não é porque eu queira esquecer. Eu acho que não quero esquecer. Eu quero que ela se faça sempre presente para me lembrar de quem eu sou, mas ao mesmo tempo queria que ela fosse mais tranquila, que não criasse tanto desconforto, que não me desse mais esse aperto na garganta, essa vontade de chorar, e um choro que não vem.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Desenhar a dor


Sigo pensando em uma imagem que eu disse há alguns dias, sobre “a qualquer momento a vida se desprender”. E, dessa imagem, me veio outra imagem nesse final de semana. Eu estava a fim de desenhar, e isso tem sido bem difícil de acontecer nos últimos tempos de tanto “trabalho sério”, mas resolvi terminar dois projetos de meses que havia começado. Eram promessas para amigas. Em algum momento o pensamento me escapou e quando voltou, me vi pegando todos os desenhos que eu fiz e tenho guardados e mandando por correios para pessoas, me desfazendo deles. Me desprendendo. É uma imagem bem poética, eu sei, talvez eu tenha querido deixar mais bonita que verdadeira, essa história. Porque a original não é tão bonita assim… Não tem despedidas, não tem cores e rabiscos enviados pelos correios, nem dá tempo de colocar a roupa mais confortável, o calçado que nos veste melhor, sabe? A versão original da história acaba com uma mensagem de “tô indo” e um remetente que nunca chega. Na história original tem roupas espalhadas pelo quarto, tem um computador ligado fazendo um upload, tem comida descongelando na pia para o almoço de alguém que não vai voltar. Você entende? Não tem como não ficar com essa imagem de “vida que se desprende”, porque a única coisa legítima da história encerra com a respiração acelerada, taquicardia, hipotensão e parada cardíaca. Bem menos poética. Nem um pouco bonita. E desenhar é a coisa mais bonita e que de melhor eu sei fazer com a dor. É a coisa mais bonita e mais sincera, é quando posso me colocar por inteira, nem que seja pra me colar naquele desenho e ir parar na parede de alguém.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Das artes do fingimento

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa

domingo, 29 de julho de 2018

Da dor do sentente...

O olhar da janela e apenas mais do mesmo. Era o mesmo sol de todos os dias, aquela mesma brisa do mar que entrava pela janela todas as manhãs, quando ela a abria ainda semi nua, porque ninguém a via. Mas fazia um tempo que alguma coisa vinha mudando. Ela andava mais agitada, e sempre havia algo no peito que pulsava num ritmo insaciável, era como se houvesse sempre algo por fazer. Ansiedade, diriam. Mas não se parecia apenas com isso, era como se algo mais pulsasse em sua fronte todas as noites e quando acordava, pela manhã, tinha sempre alguma coisa entalada na garganta, algo que ficou preso em algum sonho incompleto. Fazia tempos que não conseguia se lembrar deles. Depois das inquietações perdia as palavras, se perdia no meio de respostas infantis demais para suas próprias perguntas, bobas e inconsistentes. Incoerentes. Havia um vale de medo, um abismo infinito, e todas essas redundâncias que poderíamos utilizar para criar um efeito totalmente desnecessário. Havia um edifício maior no meio de todos aqueles edifícios, entre aquelas janelas, cujas a brisa insistia em entrar com a primeira faísca de sol da manhã, para bater em seu corpo tatuado e semi nu. Por que ela não sentia, meu deus, por que ela não se sentia? Por que todas as paredes começaram a se fechar e, de repente, nenhuma cor mais fazia sentido?

Era igual caranguejo. Se escondia dentro do casco. Ameaçada? Pra dentro do casco. Com frio? Pra dentro do casco. Perdida, sem ninguém? Pra dentro casco. A vida toda dentro do casco.

domingo, 17 de junho de 2018

Ondas

É como se tivesse essas ondas escuras e eu nadasse ate a superfície e achasse que estou indo bem, que eu vou conseguir. Mas aí vem outra e eu estou me afogando de novo.

- No escuro da floresta.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Flores no asfalto



Volta e meia eu lembro que me sentia um pouco assim, meio “pra baixo”. Tinha sido até mesmo bastante constante e frequente nos últimos dois anos. Bateu com a defesa do mestrado, a saída do emprego, e o “nada dar certo” nessa cidade imensa em que ninguém me conhecia. Bateu com aquele monte de provas que quase foi, mas não foi, e o sentimento generalizado – que aliás, permanece – de que eu sou boazinha em tudo, o que não me leva a ser realmente boa em nada. O estado “pra baixo” vinha junto com o medo de não entrar no doutorado, não conseguir outro emprego “de verdade” – porque a carreira artística exigia algo que eu não tinha encontrado ainda e que sequer chegou com o suceder do tempo, dos dias, e dos acontecimentos. A memória virou essa coisa estranha, que tá ali, mas não tá; que fica, mas não fica; que confunde, que mente. Penso que ela vem também porque nem tudo a gente é capaz de dar nome, mas então tem aquela imagem, aquele cheiro, aqueles olhos, ou a sensação. A lembrança sem-palavra que faz sentir o acontecimento e um esforço danado em dar sentido àquilo que mesmo agora, um ano e três meses depois, e as datas fechadas são sempre as mais difíceis, continua não fazendo sentido. Às vezes eu só fecho os olhos e volto a ser aquela menina. Os 25 anos parecem tão distantes, mas são apenas isso... Um ano e três meses. Alguma coisa da memória também ficou naquele dizer que ouvi tanto: “ah, você é a menina... (do milagre, do assalto, da facada)”. Todos nomes em que eu não conseguia me reconhecer. E talvez por isso das flores. Porque embora eu tenha sido “a menina de tanta coisa”, a única menina que eu queria ser era “a da tatuagem de flores” ou simplesmente “das flores”. Eu queria ser só – apenas isso – a menina que na visceralidade das flores duras que rompem e se recusam a não crescer debaixo de um asfalto qualquer, brota. Faz um furo bem ali, naquele lugar em que ninguém acreditava que poderia haver, ainda, um sopro de vida. Queria que lembrassem mais da minha teimosia que da coragem ou da força, porque não posso me responsabilizar por essas últimas – eu não sei se tinha coragem, ou se simplesmente quando acontece você tem que fazer. Mas teimosia sim. Tinha teimosia na recusa em perder para a dor, para o medo de ter como última lembrança daqui para qualquer lugar que haja, em outro tempo e espaço, a calçada quente de fevereiro ou as mãos sujas de sangue. Fui tão teimosa que ainda hoje me recuso a ter como última memória meus braços sujos nos sonhos que invadem meu sono leve e preocupado dos últimos meses. Esses mesmos em que meu pai não faz nada e minha mãe vai embora. Escolhi as flores – como se elas pudessem me trazer os suspiros bobos de volta, os galhos altivos e o riso fácil; e as folhas leves, verdes e umedecidas pela relva, como se fossem lágrimas, todas as manhãs, muito mais bonitas que as minhas; uma lembrança que não tive, que só veio mais tarde, quando pude entender – se é que isso aconteceu por completo, de fato, ou sequer vai acontecer algum dia: a visceralidade desse rombo das flores no asfalto. Se hoje tem nome? Acho que tem sim.
- “O que aconteceu?”
- “Flores”.

__________//___________

“Fique firme enquanto dói
Faça flores com a dor
(...)Então floresça de um jeito
Perigoso
Escandaloso
Floresça suave
Do jeito que você preferir”
- pra quem me lê, Tupi Kaur

O risco foi um estrondo no asfalto, no concreto do corpo. A falha, o corte, a marca do real. O inegável, o jamais não-visto. O espaço da infiltração. Infiltra tanto, que mais cedo ou mais tarde o canal infiltrado encontra terra talvez um pouco menos árida. Torna-se terreno com menos concreto e asfalto. E desabrocha.

Floresci.

domingo, 27 de maio de 2018

Nós e laços

A gente tem casco frágil demais por isso inventa tantas proteções. A roupa, o carro, a casa. Se assumíssemos nossa natureza selvagem, primitiva, andaríamos nus no mato. Gerações até engrossar o casco, mas engrossa. O pé acostuma aos galhos, a pele ao sol, o cabelo a ser lavado só com água de rio. Mas atualmente somos finos feito papel. E quando gravemente feridos somos costurados a linha mesmo, ponto por ponto.

Mas somos mais complexos que papel. Artesanato mais intrincado do que o de costurar a manhã. O galo eventualmente, ao tentar tecer uma pessoa, embolaria o canto e perderia os fios que se reencontrariam depois do nó como se nada tivesse acontecido. É por isso. A gente passa a vida toda descobrindo as falhas, consertando ou aprendendo a amar os pontos defeituosos.

Tem gente toalhinha de quermesse, aparentemente uma perfeição branca e simétrica, mas nesses é triste e invisível a goma que os faz nunca serem diferentes. Pano engomado não relaxa. Tem gente que é a bagunça de um cesto de lã. É difícil. Quem nunca pensou em desistir na metade quando a cada movimento de soltura do nó ele ou outros pareciam que mais ainda se apertavam. É desesperador. Mas esse é o desafio, tem beleza e verdade em casa movimento livre da costura caótica.

As pessoas de fios embolados que eu conheço são peças únicas e mutáveis. Amontoados de fios atemporais, que quando entendem que em termos de tecelagem só se pode seguir em frente já se fundiram ao pano único que monta o universo.

- Camila Gobbi, in Escombros e outros pedaços de coisas no chão, 2015.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Sete bilhões

- Existem sete bilhões de pessoas no mundo e você interagiu com apenas vinte mil delas, no máximo. E essas vinte mil eram bastante semelhantes. As experiências que você teve com outras pessoas foram em grande parte determinadas pelas escolhas dos seus pais. O bairro em que escolheram comprar uma casa, a escola em que decidiram matricular você... E talvez essas escolhas não tenham sido as melhores. Talvez você não se encaixe no cenário em que está no momento, mas mesmo assim conseguiu sobreviver ao colégio e teve algumas experiências significativas ao longo dos anos. Existem mais sete bilhões de pessoas no mundo. Sete bilhões. Você consegue ser pessimista a ponto de acreditar que não se daria bem com nenhuma delas?

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, p. 258.

Não há respostas boas

(...) "Não existem respostas boas para acontecimentos trágicos como esse, e como não existem, você vai enlouquecer tentando encontrar".

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, p. 204.

Antígona

Ela também desenvolve admiração pela personagem [Antígona], que enterrou o corpo do irmão mesmo quando a lei proibia.
A leitura ajuda Nanette a entender um pouco por que a maioria das pessoas é conformista - faz o que lhe mandam fazer. Às vezes se paga caro pela individualidade, ainda mais quando se é mulher.
Alex pagou caro.
Mas também pagamos caro quando obrigamos alguém a fazer algo que não quer. (...) Alex certamente seria do time Antígona, jamais os Creontes do mundo.

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, p. 217.

Prisão e liberdade

(...) Ela começa a entender por que as pessoas querem prender quem amam e por que o amor é tão frequentemente relacionado a dor, como se alegria e sofrimento fossem dois lados da mesma moeda.

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, p. 189.

O Amor é uma mulher

- "As pessoas entram em nossa vida por uma razão, uma estação ou uma vida inteira".
- Sim, mas não é de autoria dele. É um ditado popular. E muitos ditados viram clichês porque geralmente dizem a verdade. Repetimos o que consideramos real... autêntico.
(...)
- Então o amor não venceu no final.
- O amor continua por aí sendo fabuloso. Fabulosa: se o amor fosse uma pessoa, seria uma mulher.

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, cp. 22.

Forte - até rachar

- Me sinto girando de costas no meu casco há muitos anos. Completamente tonta. A vida parece um borrão, e o carrossel gira cada vez mais depressa. Às vezes mal consigo me segurar no cavalo. E quero morder todas as merdas dessas mãos que ficam tentando me alcançar, porque não sei mais quais são boas e quais são ruins. Como se não existisse mais diferença entre bom e mau. Será que dá para entender?

- Matthew Quick, in Todas as coisas belas, p. 151.