Ele fala com tanto carinho e sinceridade que me sinto tentada, mas ainda do que nas saídas recentes com Angel, em que bebi e fiquei doidona e louca de vontade de contar para ela. Já segurei por tanto tempo. Preciso desesperadamente passar pelos próximos minutos, talvez fosse melhor se eu pudesse falar, contar para alguém. Eu hesito, quase falando, como se elaborar as palavras pudesse tornar tudo pior ou melhor. É como se eu estivesse no alto de um trampolim, com o corpo encolhido, flexionado, formigando. Será que posso? Ou não posso? Controlo meus nervos e dou um passo à frente, para o vazio.
- Tina Seskis, in Indo longe demais, p. 169.
Supere isto. E se não puder, supere o vício de falar a respeito (Caio Fernando Abreu). ESCREVA.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Sobre as dores do mundo
Alguma coisa em Ben se rompeu um pouc e ele se levantou e foi até a geladeira, na cozinha, e pegou outra cerveja e virou a lata, derramou o líquido pela garganta o mais rápido possível, por que não? Ele se sentia tão explosivamente irritado que precisava obliterar o sentimento, destruí-lo em pedacinhos, e, ao engolir o álcool, ele percebeu que nem estava mais zangado com ela, estava zangado com esse mundo horrível.
- Tina Seskis, in Indo longe demais, p. 222.
- Tina Seskis, in Indo longe demais, p. 222.
Sobre histórias únicas
Acho que todos, em algum momento da vida, seja mais cedo ou mais tarde, precisam ir longe demais. Precisam se libertar das correntes que os deixam serem seres “normais”. Em algum momento será preciso se libertar das correntes e atravessar aquele muro alto e confuso que separa a sanidade do aprisionamento.
Eis a sua chance.
Eis a sua chance.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Sobre o anonimato e a cidade grande
Ando pelo parque e fico surpresa com o quanto é silencioso depois que você se afasta das vias principais, longe das espreguiçadeiras e dos turistas. Encontro uma área inclinada onde a grama cresceu um pouco mais, ando em direção ao topo e coloco a mala na sombra. Chuto as sapatilhas para fora dos pés e me deito na grama amarelada; não há ninguém por perto, só o ronco baixo do trânsito fora do parque para me lembrar de que estou realmente aqui, na capital. O sol que passa entre as árvores aquece meu rosto, fecho os olhos e me sinto quase normal, satisfeita até. Mas então a imagem queimada em mim pela milionésima vez e abro os olhos novamente. É estranho que ela não tenha ocorrido no trem, quando a dor de ir embora estava tão forte. Agora mesmo, eu estava me sentindo quase feliz, pelo cansaço físico, pela emoção da privacidade, pelo anonimato, pela promessa de um novo começo, aqui no meio dessa cidade grande. E a felicidade, Catherine, não é permitida.
- Tina Seskis, In Indo Longe Demais, p. 23.
- Tina Seskis, In Indo Longe Demais, p. 23.
sábado, 10 de janeiro de 2015
Sobre as cidades escuras
Mas olha, em nenhuma outra vez te sentistes sozinha, então não é hora de te sentir agora. Por mais que a vida pareça mais escura e fria do que faz no verão do Rio lá fora, não deixe que te digam que foi tu quem criastes os pequenos monstros nos buracos dos tijolos da grande cidade. E ainda que eles estejam às centenas, aos milhares escondendo as luzes, cochichando segredos, não olhe para eles, não deixe que seus olhos se cruzem, apenas deixa que esses monstrinhos ingratos se vão... Deixe que se percam na escuridão e se confundam com teu brilho. Por isso brilhe, brilhe muito, brilhe tanto até que percam a visão e te deixem ali, sozinha, quieta e valente; sorrindo, como sempre.
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