sábado, 18 de junho de 2016

Sobre tesouros escondidos na lama

Mas é o mundo que criou. E quando deixar de existir, esse mundo também vai deixar de existir. Mas aqueles que entendem que estão vivendo nos últimos dias do mundo não podem adquirir um significado diferente. A extinção de toda realidade é um conceito que a renúncia não pode impedir. E ainda, nesse desespero, que é transcendente, encontrará compreensão antiga e que a pedra filosofal será sempre encontrada desprezada, enterrada na lama. Isso pode parecer pouca coisa face à enganação, até que a enganação ocorra. E então, todos os grandes desígnios e todos os grandes planos serão desvelados, ou dispostos e revelados por aquilo que são.

- In Counselor, filme.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Despedida

Que tchau era aquele? De alguém que se despede da vida como quem dobra uma esquina?
Querida, você acenou tão de leve que eu jamais poderia imaginar que era a primícia de uma partida. Você ofereceu aquele sorriso doce que me encantara todos os últimos dias de nossas vidas. E nenhum vacilo. Nenhum suspiro fora do trilho, nenhuma palavra além do script, nada além do esperado.
Até podíamos falar sobre isso, falar mais sobre isso, se você quisesse. Não?
Eu só não queria que você fosse embora.
Eu não queria ir embora também. Em-boa-hora.
Silêncio. Desculpe - tententender.

Que amor era esse que não saiu do chão? Não saiu do lugar. Só fez rastejar um coração.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Guantánamo

Em 2007, Humberto Gessinger e cia escreveu esta música.
Foi para Guantánamo. Eu pensei que era para mim.


"Quem foi que disse "te quero"
qual era mesmo a canção
quem viu a cor do dinheiro
qual a melhor tradução
quem foi ao Rio de Janeiro
qual era a intenção
qual foi o dia e a hora
quem foi embora...adeus

-me tira daqui [não adianta gritar]
-me ajuda a fugir [ninguém vai escutar]
não aguento mais ... eu não sei a resposta

quem sabe o que vem primeiro
quem sabe o que vem depois
quem cabe no mundo inteiro
quem mais além de nós dois
quem chama ao telefone
por que não bate na porta
que chama arde teu nome
será que alguém se importa?

-me tira daqui [não adianta gritar]
-me ajuda a fugir [ninguém vai escutar]
não aguento mais ... eu não sei a resposta


qual é a droga que salva
qual é a dose letal?

quem quer saber tudo isso
será que aguenta a pressão
Eu não sei a resposta...Eu não sei a resposta...
Não aguento mais..."

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Convite à dor

Um dia eu precisei amar minha dor. Era o único jeito que tinha de continuar vivendo. Ou aprendia, ou morreria com ela. Resolvi aprender. Desde então, minha dor é minha companheira, minha mestra, minha parceira. Deixou de ser minha inimiga no momento em que eu a olhei nos olhos e aceitei conhecê-la com mais propriedade. Quis entrar nos mistérios de seus mecanismos com o intuito de poder administrar melhor as suas consequências.
Eu não a busco, mas, quando chega, abro as portas para que não force as janelas. Deixo que entre, ofereço-lhe um café, olho nos seus olhos para que cesse o medo e depois me empenho em deixar que fique o tempo necessário, até que se dissolva por si só, pela força do tempo. Quando acolhida, a dor se dissipa aos poucos, e, de maneira incrível e surpreendente, o que parecia ser tão definitivo transforma-se em matéria transitória. Pode parecer-lhe estranho, mas eu prefiro que ela se acomode na sala. Se eu não permito que ela entre, ela fica batendo na minha janela, dia e noite, impedindo-me o sono.

- Fábio de Melo.