sábado, 26 de dezembro de 2015

Noite de Natal

Vinte e cinco de dezembro. Descobri o chamado: faça bem ou faça mal, colocar mosquitinhos no papel me extasia e me faz querer viver, não quero morrer, para fazer mais, melhor, buscar aperfeiçoar me encanta e torna meu ser maior que eu: mágica, alquimia. Transformei meus mosquitinhos em ouro para mim mesma. Atender ao chamado, ao caminho teleológico, que é o que se percorre tortuosamente para chegar ao destino final, sempre em mutação, mas marcado. O que estava escrito, mas só se lê escrevendo. E todos temos um caminho a percorrer. Todos nós.

- Denise Stoklos, in Calendário da Pedra, p. 48.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Mes chers parents... Je pars!


Mes chers parents, je pars 
Je vous aime mais je pars 
Vous n'aurez plus d'enfant 
Ce soir ♩♫

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A porta encostada e a luz acesa

Hoje encerrei uma terapia. Cheguei lá pesada. Farta. Cansada. Passei pouco mais de um ano me livrando pouco a pouco da poeira em excesso, me livrando aos pouquinhos dos cacos que sobravam, que não tinham mais encaixe. Ao longo desse um ano fui me livrando do que não me servia mais. Abandonei o jeans 34, o medo de engordar, a inconstância para morrer. Fui abandonando aos poucos algumas de minhas obsessões e me abrindo para algumas outras liberdades. Aprendi a comer tudo o que queria, a me despedir dos receios, a desviar das pressões desnecessárias. Em tempos, deixei uma seção - a última! - engolindo o choro e dizendo que eu não podia dizer nada. Hoje não. Apenas que eu tenho um certo receio - um medo mesmo - de que eu não seja capaz de fazer sozinha, porque não teria sido em momento anterior. "Às vezes, é só medo". Sim, pode ser. Apenas medo. Mas pode ser que não. E se não for, obrigada por deixar a porta encostada e a luz acesa.

Eu não sei dizer o que é isso que me esmaga, isso que tenta de todas as formas possíveis me fazer sumir, desaparecer, perder. Eu não sei bem como é não sentir assim, como é conseguir ir mais leve, poder viver mais essa liberdade que eu sei que tenho, mas que me parece longe demais. Isso que vai e que volta, e que insiste em sempre desarrumar a casa, logo depois que eu guardei a vassoura e tranquei o portão.

sábado, 31 de outubro de 2015

Essa paz que eu preciso....


Teria paz se não tivesse sangue
Se o coração não conseguisse trabalhar
Esqueceria tudo do começo
E viveria toda a vida sem pensar

Não tomaria tantos comprimidos
Apagaria o que me dessem pra fumar
Talvez tudo fizesse algum sentido
Talvez o que é sentido possa se apagar
Apaga do teu coração
As marcas de um tempo atrás
E saiba que eu não sei viver
Com o estrago que o tempo faz


Eu tento me esconder em mar aberto
E ter por perto quem me abraça sem cobrar
Os comprimidos não me compreendem
E não esqueça o que paguei para apagar
Queria estar no teu lugar agora
Só pra entender como é estar no meu lugar
Queria estar no teu lugar agora
Só pra entender como é me ver de fora

Me diga que não quer sair
Que tem a chave para entrar
Que resolveu a equação
E sabe como me tirar do fundo
E sabe como me salvar do mundo

Aunque puedo caminar, correr y volar, no me muevo
Todo lo que eres para mi, elimina la adaga en mi corazón
Y saca la muerte de mi vida.

Teria paz se não tivesse sangue
Se o coração não conseguisse trabalhar

- Esteban, in Janeiro

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

E que palavra é essa que a vida não alcança?

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?

O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

- Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

domingo, 27 de setembro de 2015

Desordem

Voltei a passar pelo blog depois de um longo tempo. Está claro: só preciso escrever quando as coisas não vão bem. E não vão. Vão muito mal.
Há alguns dias voltei a vomitar. Voltei a pensar muito em comida, sentir uma fome louca seguida de uma repreensão exagerada, cedo ao desejo e não dá outra. Nem é em excesso, mas tenho comido muita porcaria. Esse final de semana foi uma dose extra de excessos. E, inclusive, uma preocupação excessiva com minha saúde. Acho que tenho comido muitos doces e a preocupação nem é com peso ou com engordar, é com o que esse açúcar todo está se transformando dentro do meu corpo. Ontem, comi nachos, e não conseguia parar de pensar em que era toda aquela quantidade de sódio correndo pela minha corrente sanguínea. Aliás, por falar em sangue, sim, hoje eu me cortei, só pelo prazer de vê-lo escorrendo no meu braço - saindo do meu corpo.
Gente, isso é loucura! Socorro! Alguém!

domingo, 30 de agosto de 2015

Sobre desejar mais que a própria vida

Ele sentia tudo aquilo perto, muito perto. Quem sabe, ao seu lado.
Mas ele não sabia que já tinha ficado para trás.
Gatsaby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que encolhe dia após dia à nossa frente. Escapava-nos no caminho, mas isso não importava. amanhã correríamos mais depressa, abriríamos mais os braços, e uma bela manhã...

Por isso vamos batalhando, barcos contra a corrente, sempre arremessados, incessantemente, contra o passado.

- The great Gatsaby.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ei, moço

Já me matei faz muito tempo
Me matei quando o tempo era escasso
E o que havia entre o tempo e o espaço
Era o de sempre
Nunca mesmo o sempre passo

Morrer faz bem á vista e ao baço
Melhora o ritmo do pulso
E clareia a alma

Morrer de vez em quando
É a única coisa que me acalma

Paulo Leminski

domingo, 2 de agosto de 2015

Que nunca foi feliz nessa tua vida...

Tira a maquiagem pra que eu possa ver
Aquilo que você se esforça pra esconder
Agora somos só nós dois, já podes parar de fingir

Mas cala essa boca e me diz com o olhar
Quem era você até me encontrar?
Se agora és diferente
O que eu fiz que te fez mudar?

Eu lembro dos lábios
Tremendo ao dizer
"Eu não vivo sem você"

Então diga
Que não vai sair da minha vida
Diga que não passa de mentira
Quando dizem que o amor morreu

Tira essa roupa pra que eu possa ver
Que não há uma arma tentando se esconder
O mal vive num lar perfeito e sem infiltração

Mas tira o cabelo da cara e me diz
Se por um segundo quiseste me ver feliz
Ou se és o meu destino tentando me dar outra lição

Eu lembro de serrar os punhos pra dizer
"Eu não amo mais você"

Então diga
Que não volta mais pra minha vida
E que a nossa estrada é bipartida
Esqueça o dia em que me conheceu

Então diga
Que nem todo dinheiro dessa vida
Não vai comprar de volta acolhida
No peito de quem já foi todo seu

A casa é minha, mas pode ficar
Eu volto amanhã e não quero mais te enxergar
Faça as suas malas e nunca mais volte aqui

E eu juro pela vida da mãe e do pai
Ciente do peso da expressão "nunca mais"
Volte a oferecer teu corpo a quem preferir

Viver ao lado de quem não tem nada pra dizer
Confesse pra mim de uma vez

Mas diga
Que nunca foi feliz nessa tua vida
Teu texto, teu sorriso de mentira
Pode enganar a todos, não a mim

Então diga
Que essa mão que acena na partida
Por tantos idiotas pretendida
É a mesma que decreta o nosso fim

Assisto ao teus passos como a um balé
Quem vais usurpar agora que ninguém te quer?
A verdade demora mas chega sempre sem avisar

E o grito contido no teu travesseiro
Ecoa nos lares do mundo inteiro
Não tira esse rímel, pois hoje quero vê-lo borrar

- Fresno, in Diga

sábado, 1 de agosto de 2015

Vai, me diz... Sai daí...



Me diz o que há, o que é que a vida aprontou dessa vez?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sobre o que não se quer explicar

Não dá para explicar muito bem como é, só que é uma vontade muito grande de me fazer mal. Algum mal, qualquer, e então ajo da forma que melhor sei me punir. E depois, um pouco de dor, um pouco de sangue, e fim.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sobre as escolhas

Não tenho escolha. Rachel pensou em como aquilo era verdade, e a respeito de tudo: a gente tem uma chance no começo, mas, se não fizer a escolha certa, como ela não fizera, as opções se afunilam bem depressa. Como tentar atravessar um rio, pensou. Se você der um passo errado, pisar em uma pedra solta ou em um buraco, a correnteza leva você embora e a única coisa a fazer é tentar sobreviver.

Não deveria ser assim, disse Rachel a si mesma, e ela sabia que para algumas pessoas de fato não era. Alguns podiam fazer uma escolha errada e mesmo assim seguir seu caminho sem se aborrecer mais que uma vaca espantando uma mosca com o rabo. Isso tampouco estava certo. Com a raiva que ela sentiu ao pensar nisso, ficou mais fácil ir até o depósito pegar o machado.

- Ron Rash, in Serena, p. 80.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Quando livros dizem por você, o que você não é capaz de dizer

Enquanto voltava para casa, lembrou-se dos dias que se seguiram ao funeral, quando o silêncio da casa se tornou tão palpável (...). Até que certa manhã ela começou a sentir um alívio da dor, como se finalmente começasse a reduzir a pressão, diminuindo seu poder de ferir. Naquele mesmo dia, Rachel não conseguiu recordar para que lado o pai repartia o cabelo, e entendeu mais uma vez o que já tinha aprendido aos cinco anos, quando a mãe fora embora: o que torna suportável a perda de alguém amado não são as lembranças, mas o esquecimento. Primeiro esquecia-se das pequenas coisas - o aroma do sabonete com o qual a mãe se lavava no banho, a cor do vestido que ela usava para ir à igreja - , depois de algum tempo, o som de sua voz, a cor do cabelo. Rachel ficou impressionada com o quanto podia esquecer, e tudo que esquecia tornava aquela pessoa menos viva dentro de si, até ser capaz de finalmente suportar a dor. Com o tempo, era possível se permitir lembrar, até desejar lembrar. Mas, mesmo assim, a sensação daqueles primeiros dias podia voltar para lembrar-lhe que a dor continuava ali, como um velho arame farpado escondido no cerne de uma árvore.

- Ron Rash, in Serena, p. 53.

domingo, 19 de julho de 2015

Vai doer... como hoje dói

Os olhos dela ensinam estrelas a brilhar
Vai doer
Os braços dela ensinam ondas a quebrar
Vai doer, vai doer, mas depois vai passar, rosa
Vai você que eu não tardo em chegar, rosa

Os olhos dela ensinam ondas a quebrar
Vai doer
Os braços dela ensinam estrelas a brilhar
Vai doer, vai doer, mas depois vai passar, rosa
Vai você que eu não tardo em chegar, rosa

- Wado, in Rosa.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sobre quando me traíres

GILBERTO: Na casa de saúde eu pensava: nós devemos amar a tudo e a todos. Devemos ser irmãos
até dos móveis, irmãos até de um simples armário! Vim de lá gostando mais de tudo! Quantas coisas
deixamos de amar, quantas coisas esquecemos de amar. Mas chego aqui e vejo o quê? Que ninguém
ama ninguém, que ninguém sabe amar ninguém. Então é preciso trair sempre, na esperança do amor
impossível. Tudo é falta de amor: um câncer no seio ou um simples eczema é o amor não possuído!
SEGUNDO IRMÃO: Bonito!
PRIMEIRO IRMÃO: Que papagaiada!
TIO RAUL (Contido): — E, finalmente, qual é a conclusão?
MÃE (Para si mesma): — Meu filho não diz coisa com coisa...
GILBERTO: É que Judite não é culpada de nada! E, se traiu, o culpado sou eu, culpado de ser traído!
Eu o canalha!

 - Nelson Rodrigues, in Perdoa-me por me traíres, p. 25.

Aquilo que não dizes...

TIO RAUL: E outra coisa: por que falas tão pouco, porque quase não falas, por que dizes apenas “sim” e “não”, por que finges e por que prendes os lábios?
GLORINHA (Fora de si): — Não sei!
TIO RAUL: E como não falas nunca, a conclusão é que sou muito curioso de ti, de tua alma, de tudo
que não dizes, de tudo que não confessa. (exasperado, virando-se na direção de dia Odete) Porque eu estou farto de silêncio, farto de coisas não ditas.

- Nelson Rodrigues, in Perdoa-me por me traíres, p. 29.

domingo, 12 de julho de 2015

Sobre amar alguém

Às vezes eu gostaria de ser um arquiteto para poder dedicar um edifício a uma pessoa. Uma superestrutura que romperia as nuvens e continuaria subindo até o âmago do céu.

- Josh Malerman, in Caixa de pássaros, prefácio.

Processos de institucionalização e a mortificação do eu

Instituições de Longa Permanência para Idosos, as ILPIs, são locais destinados à assistência integral – diga-se, biopsicossocial – de pessoas com 60 anos de idade ou mais, que não possuem possibilidade de permanecerem com a família ou em seu domicílio, sejam dependentes (física/mentalmente) ou não. Com elas, o Estado busca garantir a manutenção dos direitos dos idosos, conforme suas necessidades coletivas e individuais, atendendo, em sua maioria, idosos com poucas condições financeiras. Sua emergência é uma tentativa de suprir as problemáticas inerentes ao aumento significativo do contingente de idosos no país, já que o fenômeno da longevidade avança a passos largos no Brasil.

Por outro lado, há outra preocupação que deve ser levado em conta: a qualidade dos serviços oferecidos por esses locais. Em termos psicossociais, diversas pesquisas têm apontado que a estrutura institucionalizada da ILPI reprime a expressão da subjetividade e da intersubjetividade de seus moradores, favorecendo que as identidades e as relações entre as pessoas se tornem cada vez mais empobrecidas. Isto se expressa nas normas que restringem não somente as saídas, mas padronizam a rotina institucional, portanto com pouco ou nenhum espaço para as peculiaridades de cada pessoa. Infelizmente, esta é a realidade de parte considerável das ILPIs de nosso país, principalmente em se tratando de instituições públicas e filantrópicas.

Com o apoio da psicanálise, aprofundamos ainda mais esta preocupação com o sujeito: para além do declínio físico, social e intelectual dos idosos, justificada pela deficiência de incentivos para manutenção de atividades que superem a rotina do local e a carência de profissionais; há uma relação entre institucionalização e perda de desejo, que traria como consequência a morte simbólica, ou seja, o esfacelamento do eu, antes da morte do corpo.

Norbert Elias trata da morte não apenas como fim efetivo da vida diante do adoecimento e do envelhecimento, mas como uma partida que muitas vezes começa muito antes. O sujeito começa a morrer quando é isolado, quando há o “gradual esfriamento de suas relações com as pessoas a que era afeiçoado, quando há uma separação dos seres humanos em geral, daquilo que dá sentido e segurança, situação muito comum em processos de institucionalização. Também Lacan e Messy apontam a morte de ordem simbólica como precursora da morte física: além da morte física, caracterizada pela decomposição da carne, há também a morte simbólica (psíquica e social), vivida com a exclusão da atividade produtiva e/ou reprodutiva – a exemplo a aposentadoria, e a entrada na menopausa no caso das mulheres – e com a perda de referências e desinvestimento no ego.

Seja qual for a forma com que falemos da morte, não fugimos de um ponto central: de uma forma ou de outra, ela inviabiliza a existência do sujeito. E em que a institucionalização favorece isto? Quando a rotina institucional é opressiva, quando estabelece que as normas e os horários fixos rígidos são a única forma encontrada para manter o funcionamento, mesmo que custem caro à subjetividade de seus moradores. É aí que o controle disciplinar age sobre o corpo e o coloca em relação com o gesto eficiente, o panóptico foucaultiano.

Com o tempo o sujeito se apaga. Suas marcas, suas identidades se esfacelam e evaporam. Com o passar dos meses e dos anos, sobressai o que Goffman chamou de mortificação do eu: a especificidade de subjetividade a ser seguida dentro da ILPI não permite investimento no desejo do eu sobre objetos significativos. Há uma falta que vai para além da falta estruturante do eu, trata-se de um isolamento que favorece o apagamento subjetivo, a morte simbólica. O dispositivo institucional promove a restrição de encontros, importante para a formação e manutenção de laços sociais significativos. “Envelhece-se”. Não um envelhecer do tempo cronológico, mas um envelhecimento no sentido de haver algo em seu olhar dizendo que aquele idoso não está ali há apenas alguns meses ou anos, mas muitos anos, talvez uma vida inteira. Os efeitos do poder institucional sobre estes sujeitos produzem então uma sobrevida, similar ao que Peter Pelbart percebe nos campos de concentração estudados por Giorgio Agamben. O mulçumano “era o morto-vivo, o homem-múmia, o homem-concha. Encurvado sobre si mesmo, esse ser bestificado e sem vontade tinha o olhar opaco, a expressão indiferente, a pele cinza pálida, fina e dura como papel, começando a descascar, a respiração lenta, a fala muito baixa, feita a um grande custo. (...) Exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer (PELBART, 2006, s./p.)”.

Isto escapa à ordem de kronos. É um tempo que remete a kairós e, em pouco tempo, estes idosos adoecem e morrem, ou passam longos anos vivendo nessa sobrevida, que nada tem a ver com os anos cronológicos. A morte subjetiva e social impera e dá a ordem limítrofe que a separa da morte física: o corpo não aguenta mais. E o que é que este corpo não aguenta? “Ele não aguenta mais tudo o que o coage, por fora e por dentro. (...) Não aguenta mais a mutilação biopolítica, a intervenção biotecnológica, a modulação estética, a digitalização bioinformática do corpo, o entorpecimento” (PELBART, 2006, s/p.). O adestramento civilizatório, que impõe modos de ser ao corpo do sujeito contemporâneo. Persevera apenas silenciamento do corpo e a docilização impostos pelas disciplinas, pelas Instituições, pelos discursos do saber. O corpo morre quando não é mais capaz de aguentar a mortificação a que é submetido, fruto de práticas fascistas, práticas autoritárias e totalitárias de vigilância e disciplina. O corpo disciplinado em instituições controladoras morre quando perde a capacidade de ser afetado pelos acontecimentos do mundo, quando se torna blindado. Sob a ótica da psicanálise, poderíamos dizer que a mortificação do corpo seria sintoma da relação entre um corpo impenetrável e um Pai onipotente e que não dá tréguas – “um pai institucional”.

E o que fazer, então, quando a instituição de assistência, que é um direito do cidadão, se torna palavra de ordem e opressão que impossibilita a existência do sujeito?

Referências:

ELIAS, N. A solidão dos moribundos – seguido de “Envelhecer e morrer”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
FOUCAULT, M. História da loucura na Idade Clássica. 6ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.
GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos. 8. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.
MESSY, J. A pessoa idosa não existe. São Paulo: Aleph, 1993.
PELBART, P. Vida Nua, vida besta, uma vida. In: Revista Trópico. 2006. Disponível em: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl Acesso em: 26/05/2015

- Originalmente publicado em Obvious

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Dúvida

Hoje a dor novamente bateu a porta.
Saí correndo. Cabelo solto, vento forte, lágrimas batendo pelos muros cinzas da cidade.
Por que não sinto mais você?

Pequenas celicidades (in)certas

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para vê-las assim.

- Cecília Meireles, 1964.

domingo, 21 de junho de 2015

Sobre perder alguém

Quando pensamos amar uma pessoa, nosso ego investe nela uma imagem que o constitui. Quando a pessoa desaparece ou morre, a relação do ego com o objeto é marcada pelo luto, sendo vivida pelo sujeito como a perda. A libido investida no objeto se retira. A dor é uma decorrência da volta da imagem investida, e, aspecto capital, essa imagem fica desprovida de suporte da realidade do outro. Digo do outro, mas bem que poderia dizer do objeto. Não se trata do outro na sua inteireza, mas da perda desta parte do outro que constituía um aspecto do meu ego.

- Jack Messy, In A pessoa idosa não existe, 1993, p. 15.

sábado, 20 de junho de 2015

O luto, a velhice, e as grandes e pequenas perdas

Aquele dia chegou. Você não esperava que ele fosse chegar realmente, mas ele veio. Aliás, você sabia que chegaria, mas não queria acreditar nesta possibilidade. Não era uma possibilidade. Perder alguém, nunca é. Mas está aí... Bate a sua porta e, a contragosto ou não, só resta abri-la.

Ao longo da vida colecionamos essas perdas. Pequenas ou grandes, às vezes apenas incomodam e deixam uma leve dor de cabeça; em outros casos devastam a casa e o nosso coração. A morte do cachorro, a perda da carteira, o esquecimento do dia de aniversário de um amigo querido, o próprio amigo querido. Os avós, os tios, os primos, os pais, os irmãos. Todos, no final das contas, se vão. Há tanta contradição na vivência destas perdas cotidianas... É também o namoro que acabou, a paquera que não rolou, o sapato que descolou, o pijama furado que a sua mãe jogou fora. Lembra-se do copo de vidro com animações de um aquário que você gostava tanto e que certo dia caiu na pia e quebrou? Você lembra-se também do dia em que a professora querida, da segunda série, se mudou? Ah, você sofreu tanto... Ah, você achava que era a dor mais dolorida que podia sentir. Você achava que era o mais perto do que chamam "tristeza" que você poderia chegar.

Mas, naquela época, você nem imaginava a coleção de perdas que teria que enfrentar dali em diante... Você não poderia chegar nem perto do que era precisar viver o dia em que sua mãe ligou e ao ouvir seu alô saber que era para dizer que sua avó havia partido. Você não podia imaginar como é ouvir, ano a ano, durante a graduação, velhos amigos dizendo que colegas do colégio estavam partindo, com carros partidos pelas BRs de sua região. Passou a doer muito mais, também, quando os telefonemas, as mensagens, traziam a morte prematura de pessoas queridas que tiravam a vida com as próprias mãos. Você chorou tantas e tantas vezes diante de cada comunicado desses, não é? Você havia investido tanto amor naquelas relações...

Do ponto de vista da psicanálise, você pensava amar tanto aquelas pessoas que seu ego investiu toda libido possível na imagem delas - nos cheiros, nas cores dos cabelos, nas lembranças dos sorrisos, nos toques dos dedos. Cada investimento é único e constituinte do seu ser. Mas então, em certo dia, sem que você soubesse e muito menos pudesse prever, essa pessoa desaparece ou morre e então sua vida fica marcada pelo luto. A relação do ego com o objeto é mediada pela perda e o direcionamento de toda aquela energia, da libido, se retira e volta para você. Então, não lhe resta outa coisa, senão investir novamente, em outro lugar, em outra pessoa. Você até consegue, sabe que isso é possível, mas a dor, decorrente da volta da imagem investida, perde todo e qualquer suporte e investir novamente parece algo tão difícil. A imagem daquela pessoa que você amou não se sustenta mais na realidade do outro. Isso quer dizer que, quando o perdeu, qualquer que tenha sido este objeto para o qual você direcionou seu amor, você perdeu um pouco de si mesmo. Era a parte do outro que constituía um aspecto seu. E que se foi.


Ao longo de sua vida, tantas e tantas outras vezes você precisará passar por isso. Lamento dizer mas, ao longo da vida, muitos mais serão as perdas e menos as aquisições. A menopausa vai chegar, a aposentadoria (um dia) também. Virão também as perdas de outros amigos e familiares queridos, com o tempo, também as falhas de memória, os pequenos esquecimentos. Um dia, e com sinceridade eu espero que não, talvez o Alzheimer chegue e esfacele o seu eu de forma lenta e progressiva. Quem sabe ele traga a noção da brevidade da vida, e então tenhamos que falar sobre morte, sobre a morte do corpo e a morte psíquica, que talvez chegue antes daquela, como proposto por Lacan em sua leitura da Antígona, que morre simbolicamente ao ser retirada da presença dos que lhe são significativos.

Nosso medo de envelhecer, nada mais é que o medo do sofrimento que imaginamos que anteceda a morte. Ao buscar sentidos para a velhice, inconscientemente percebemos que estamos convictos de nossa imortalidade e, em se tratando da atemporalidade do inconsciente, a morte não possui representação inconsciente. Para o inconsciente o velho é sempre o outro. E se viver a velhice só diz respeito ao velho, nos localizamos fora das ameaças do tempo. Logo, somos inalcançáveis pela morte.

Neste ponto a morte se atrela à velhice, por conta de um discurso que se propaga no âmbito social, sim, mas também porque se o inconsciente não envelhece nem morre, o ego sim, e o que compõe esse processo se faz marcado pelo sofrimento, tornando a velhice intolerável. Ela guarda em si “a ideia de uma morte de nada. Quando ela surge, porém, torna-se uma morte por velhice”. Segundo Jack Messy (1993, p. 35), "através do medo de envelhecer não estará, acaso, o medo da morte que assim se exprime, ou falando de outro modo: o temor de perder a vida, como tivemos que perder o seio ou a placenta? Mas essa perda é impossível, impensável em demasia, exceto se anteciparmos o ganho de outra vida, celeste ou reencarnada, através da fé num ideal religioso. Talvez não seja a própria morte que cause medo, mas a ideia que temos dela". E então, quantos não são os nossos engodos? Quantas não são as nossas crenças cegas, que tornam nossa passagem pela vida algo mais tolerável de se viver?

- Originalmente publicado em Obvious.

Sobre corações expostos


Viver dói um pouco. É preciso expor algumas marcas que nem sempre ficamos contentes de mostrar. Aliás, em geral, sentimos medo em expor cicatrizes ainda abertas.

Há sempre um certo desespero em viver. Viver é sempre urgente e preciso. E, nesta caminhada de vivente solitário, impossível viver sem as marcas. Aliás, o próprio viver já é uma delas. Ao aceitarmos um pacto com a vida, recebemos também a marca de existir e, conforme avançamos pela tênue linha de existir, mais e mais marcas nós ganhamos. A cada dia uma nova marca, uma nova ferida aberta. Marcas que podem ser expostas ou não, mas que, independentemente disto, ficam sempre ali, à superfície, e ninguém precisa procurar muito para vê-las. O mais interessante, no entanto, é que nos identificamos uns com as marcas e cicatrizes dos outros, e assim formamos laços por similaridade.

Nós nos denunciamos, nos entregamos sem querer, e em um pequeno vacilo acabamos mostrando que somos humanos com feridas expostas. No encontro com o outro, nossas ataduras caem. Sentimo-nos tão frágeis e vulneráveis diante do conhecimento do outro sobre nós mesmos que nos apavoramos. O medo é tão grande que ficamos confusos, envergonhados... Somos desastrados e denunciamos nossos pequenos atrapalhos diários: diante de tantos paninhos quentes, com os quais preparamos retrógradas ataduras para tapar nossas feridas, insistimos em fazer malabarismos pouco ensaiados para manter os paninhos nos locais adequados. Mas, onde seriam tais lugares? O que deveríamos e o que não deveríamos mostrar? E por quê?

Por outro lado, há também aqueles seres mais ousados... Há muita gente por aí que anda com o coração na mão, à mostra e suscetível aos novos contatos, às novas relações. Não são melhores nem piores que nós, que somos mais cautelosos. Não são bons e sequer são ruins. No final das contas, andar por aí com o coração exposto também faz parte da fragilidade humana – o que, às vezes, é até um engodo.

Mas, apesar de tudo, abrir o coração e deixa-lo livre por aí tem lá suas vantagens... Quem nunca se imaginou se jogando de cabeça em uma relação? Quem nunca se forçou para ver no espelho a imagem de alguém que vive uma paixão louca e fugaz? Quem nunca desejou se perder com o coração se esvaindo de amor pelo mundo? Quem é que nunca desejou construir castelos de sonhos sobre a areia do deserto, só para no final degustar sonhos em formato de castelos – fortes e imponentes em uma vida completamente vazia?

Mas, infeliz – ou felizmente – são poucos os que andam por aí como o coração a mostra. É um risco grande e com o desafio aceito uma vez, não há qualquer possibilidade de volta. Essa pequena parcela de agraciados, em geral, vive de forma muito mais intensa, são os abençoados com tal dádiva – julgam-se! – de encontrar alguém digno de seu coração e, em tempos como estes, encontrar alguém que receba seu coração, sem cortes nem melindres, é como ganhar na loteria: a concorrência é dura!

Ei, você que anda por aí de coração à mostra, tudo bem caminhar lento e desapressado. Tudo bem estar mais aberto e sensível ao mundo. Mas, cuidado! Não é justo consigo mesmo se jogar sempre de cabeça, mesmo quando se sabe que a poça é rasa e poucas vezes justa. Tombos de cabeça em geral são mais graves, provocam febre alta e dores de cabeça, além de cicatrizes incuráveis.

- Originalmente publicado em Obvious.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sobre a angústia de morte

O medo é uma angústia que encontrou seu objeto. Atrás da angústia de perder a memória, não estará surgindo a de ser despossuído? Assim como o temor de ser roubado na rua recai, deixemos claro, em última instância não sobre o dinheiro da carteira, mas na carteira de identidade, que está com ele na bolsa. A bolsa ou a vida? É a perna que se subtrai sob o peso duma vida ou é o chão que se abre, sob os passos que levam os pés ao túmulo? Enfim, quando uma angústia aparece, bloqueando a respiração e o coração, é uma angústia de abandono, de solidão que durante a noite adquire sua dimensão completa.

- Jack Messy. In A pessoa idosa não existe, 1993, p. 34.

domingo, 14 de junho de 2015

Sobre a espera que não se acaba

Uma das coisas que mais gosto sobre morar em cidade litorânea é justamente o mar. Tê-lo ali, o ano todo, calor ou frio, com sol ou chuva, realmente, não tem preço! E assim posso recorrer a ele sempre que precisar. Foi assim hoje... Há tanta coisa aqui dentro, na fila de processamento em direção a pensar. A maior e mais intensa delas, neste momento é sobre a espera. É a questão sobre como lidar com o fato de ter que esperar em uma sociedade que valoriza tanto o imediatismo. Estou tendo muito que esperar. E é angustiante!
Então hoje, ao caminhar pela baía, na Praia de Icaraí, de jeans e sapatilhas nas mãos, o tempo, Deus, ou qualquer ser supremo me disse que sim, é isto, e apenas isto: é preciso esperar.

sábado, 13 de junho de 2015

Corram para as montanhas!



Vez ou outra todos precisamos de uma “pausa tensa”. Aprendi teoricamente sobre esse conceito no final do ano passado, com uma professora ótima e que marcou meu primeiro semestre no mestrado e o início de uma vida nova, que começa no Rio de Janeiro (mesmo que ela não faça nem ideia disto!). Isso quer dizer que mesmo antes de saber o que a “pausa tensa” queria dizer, eu já buscava por ela.

Sair de casa, deixar o ninho, alçar voos mais longos e ousados; foram uma das minhas primeiras pausas tensas. A segunda, ou a terceira, ou a quarta, foi agora, recentemente, na primeira viagem internacional que fiz, de quatro dias em Santiago, no Chile.

Eu buscava uma tensão menos tensa que a que vivia. De forma alguma eu queria tranquilidade. Mas, com certeza, precisava dar um tempo na vida tão agitada da metrópole. Eu buscava um pouco de paz diante do meu medo da perda e da minha esquiva de lutos recentes. Eu queria me afastar um pouco do trabalho que me pressiona, do mestrado que me angustia, dos relacionamentos que dão pouco ou nada certo, da doença que ronda minha família. Tudo o que eu queria era um descanso, era um correr para as montanhas. E foi o que fiz. Com literalidade, com silêncio, com o coração cheio e o estômago vazio.

Sábado, dia 06.06.2015

As oito horas em ponto eu acordo com o telefone do hotel tocando. Atendo. Do outro lado da linha aquele sotaque forte e arrastado dos chilenos. Ele sabia que eu era brasileira, foi breve, e me disse algo tão rápido e alto que não consegui entender. Mas sabia: a van da agência com que íamos ao Valle Nevado havia chegado! Embarcamos em nosso hotal, na Providencia, rumo às Cordilheiras, sem café da manhã e com um pouquinho de fome, com roupas que não pareciam me aquecer o suficiente e uma garrafa de água com gosto doce e difícil de tomar. Depois de uma hora e meia em uma subida vagarosa e cheia de paradas para fotos, lojinhas e barracas de souvenires e roupas quentes para aluguel, trilhando passos por ruas serpenteadas e estreitas, além de muito bem conservadas, nós chegamos. Mas o topo ainda estava longe. É claro que eu queria chegar lá, bem perto da neve, “no topo do mundo”, sentir o vento congelante bater no meu agasalho alugado pelo rombo de 24000 pesos. Eu queria sentir aquele sol mais perto do meu rosto, o vento cortante deixando minha face um pouco queimada e os lábios ardendo. Eu queria viver tudo aquilo nas próximas duas horas que tinha e minha subida ao ponto mais alto da Cordilheira era de viajante solitária. Continuava me acompanhando o silêncio, uma câmera fotográfica e duas ou três decepções.

Depois de mais alguns minutos de passos largos e respiração ofegante, chegamos lá. Eu e meu corpo. Eu e as botas pesadas que não eram minhas. Eu e meus olhos, que sei, ficam mais verdes ao se misturarem ao azul intenso do céu. Não posso explicar a imensa vontade de chorar que me acometeu, o nó na gargante! E não era por achar que, às vezes, a vida nos exige um pouco demais, sequer porque eu tinha motivos para ficar triste. Eu queria chorar porque sentia que estava no lugar mais lindo do mundo, o lugar em que devia estar, um lugar para mim. Ali, em meio às montanhas geladas da Cordilheira dos Andes, há mais de 3000 metros de altitude, distante de tudo e de todos os rostos conhecidos, eu senti a vida que existia dentro de mim, eu senti um amor que achava que não era capaz de sentir. Por mim, pelas pessoas, pela vida, pela natureza, e por tudo aquilo ali que meus olhos eram capazes de ver e que minha boca não é capaz de definir. Dali, do ponto mais alto a que podia chegar caminhando, eu me sentia gigante, imensa, dona do mundo e; ao mesmo tempo, pequena e impotente diante da grandeza de tudo que existia lá fora. Então era isso! Essa era a minha tão desejada e esperada “pausa tensa”. Então era esse meu grito: "ei, mundo! Dê-me um pouco mais de tempo, e tenha um pouquinho mais de paciência"!

Eu buscava esse sentimento sem nome, que me faz transbordar e que me completa ao sobrar. Que me prende a respiração e devolve a vida. Eu buscava vida. E encontrei. Correndo para as montanhas. Correndo de relacionamentos fugazes. Fugindo de objetivos de vida rasos e inconsistentes. Eu queria mais. Mais choro, mais grito, mais sol queimando a face, mais vento rachando os lábios, mais pausa tensa em sábado de outono transbordante.

Então, como canta uma de minhas bandas favoritas... “Deixa o sol bater na cara, esqueça tudo o que lhe faz mal/Deixe o sol bater no rosto, que aí o desgosto se vai” (Cidadão Quem)!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sem mais.

Sem amanhã.
Sem público.
Peço-lhe, amigo, seja feliz. Tenho a vaga impressão que da sua capacidade de ser feliz depende a nossa única esperança.

- Milan Kundera, in A lentidão, 2011, p. 105.

Sobre possibilidades

Cada possibilidade nova que tem a existência, até a menos provável, transforma a existência inteira.

 - Milan Kundera, in A lentidão (2011, p. 32)

Sobre o tempo e a memória. Coisa de sentir


Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Imaginemos uma situação das mais comuns: um homem andando na rua. De repente, ele quer se lembrar de alguma coisa, mas a lembrança lhe escapa. Nesse momento, maquinalmente, seus passos ficam mais lentos. Ao contrário, quem está tentando esquecer um incidente penoso que acabou de viver sem querer acelera o passo, como se quisesse rapidamente se afastar daquilo que, no tempo, ainda está muito próximo de si.

- Milan Kundera, in A lentidão ( 2011, p. 30).

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Em matéria de amar

Às vezes você tem que admitir que acabou. Que aquela fase gostosa chegou ao fim, que a Nutella só ficou no fundo do pote, que do café só ficou o restinho do pó. Você virou estrela na vida de alguém e mesmo que quisesse ser cometa, não passa de mais um grãozinho de areia no deserto imenso que é o coração do outro. Você ficou para trás, não foi a escolha certa, não foi nada além de um outro alguém.

Há outros por aí, sempre houveram e sempre haverão. Talvez mais ninguém como essa paixão louca, com esse amor desenfreado e com o qual você amou tanto que chegou a achar que às vezes não seria mais capaz de respirar sem ele. Este, se foi. Mas outros virão. Tenha calma, seja paciente. Deixe que o seu coração sofra o que tem para sofrer agora e não segure as lágrimas. Deixe que ele se lave, deixe que ele se renove. Mas engula as palavras se elas forem te deixar ainda mais triste. Se for para dizer algo, diga a ele que você não se contenta com as migalhas. Que não quer ser sempre a outra, a para quando der, a que recebe sempre um talvez como resposta. Você quer se a única, quer ser inteira, e o quer por inteiro também. Neste jogo é tudo ou nada. Nada de pequenas coisas. Que tudo seja grande, imenso, intenso. Que tudo inunde seus corações, ou deixe que simplesmente se desfaça no ar. Em matéria de amar, é oito ou oitenta.

Sem meias palavras, sem meias verdades, sem meias vontades.

domingo, 17 de maio de 2015

Sobre a vida

Tem coisas na vida que a gente não pode controlar.
Não pode entender.
Não pode aceitar.
E é isso, a vida é isso.

sábado, 16 de maio de 2015

A realidade como pode ser: a vida tecida pelos pincéis de Frida Kahlo

Frida Kahlo foi uma das mais ilustres artistas do século XX. A pintura nasceu e viveu no México e, por meio de sua arte, expressa toda a fragilidade do ser humano, sendo que suas criações são atuais ainda hoje.
Frida é simples. Simples pela autenticidade de suas obras, que em verdade não têm nada de simples, mas que são de uma simplicidade sem igual. Com sua arte, Frida retrata a aproximação entre a arte e a angústia do ser humano. Parece que sua arte foi, em verdade, uma forma de elaboração de suas próprias dores e lutos – da infância difícil, da adolescência vazia, do acidente trágico no bonde, da paixão que não é correspondida, da arte que não se faz compreendida.
Em seus quadros, Frida retrata sua vida antes e após o acidente fatídico que a deixou acamada por um bom tempo e com a mobilidade reduzida, embora sem nunca ter deixado de tocar a todos com o que tinha de mais potente: uma tela e algumas tintas e pincéis, além de uma mente à frente do seu tempo. E é com eles que Frida encanta e desencanta – denuncia as incongruências sócio-políticas vividas por toda uma geração. Com sua obra, Frida nos passa uma mensagem. Ela nos prepara para anos difíceis que ainda estariam por vir, tempos em que sofrem muito aqueles que são sensíveis, que assumem diante da vida uma postura um pouco mais aberta e acolhedora. Em sua vida, a expressão artística entra de maneira mais incisiva justamente em um momento de convalescença e torna-se a razão do próprio existir. A dor lhe dá sentido ao fazer sentir. Frida dói. Por dentro, por fora, nos ossos, na alma e no coração. Frida sobre e é por sofrer que vive.
Embora a princípio a arte seja para ela a expressão de uma atitude narcísica, expressão individual e individualista de suas próprias dores, ela não deixa de tocar a todos que a apreciam, na posterioridade, por dar forma àquilo que é capaz de desintegrar e dilacerar ao construir um sujeito. Suas obras se compõem através de cores, formas e palavras. Frida pode, assim, aventurar-se em recomposições de sua forma, buscando a integridade de sua própria imagem.
O mais brilhante, no entanto, é a acessibilidade com que escreve sua história aliando pintura e escrita, a exemplo seu Diário, um verdadeiro romance traçado por fragmentos, por frases, por insights, despropositados e tão propositivos. Eles orientam e dão legitimidade às vivências de sua autora. Frida sofre e, porque sofre, cria e produz o belo da Arte, aquilo que de mais puro ela pode oferecer: sua Alma em cores e riscos. Há um lirismo que intercambia escrita e imagem. Ou seja, Frida recorre à escrita poética desde sempre para retratar a si mesma. Seu diário parece ser apenas uma consequência, dá continuidade histórica à necessidade precoce apresentada pela pintora, de viver e reviver sob a escrita poética. Curioso é que ela não deixa de lado também a autenticidade da biologia humana, pois sabe retratar o próprio corpo e seus detalhes de forma nua e crua sem, no entanto, se fazer grosseira ou superficial.
E, é em um balé contemporâneo e surrealista que Frida trilha passos leves e repletos de encantos, encantando espectadores, entre formas, cores e palavras. Talvez não se tenha ainda vivido outra artista tão completa quanto Frida, em termos de releitura poética da realidade: Frida denuncia o Estado opressor e machista de sua época, ao mesmo tempo em que emana o que há de mais belo na cultura mexicana. Frida é capaz de resgatar a arqueologia e a arte indígena, como desejou seu pai, ao mesmo tempo em que reelabora conflitos pessoais e coletivos atuais de toda uma geração, ligando-os à sua própria experiência, nas formas da tradição mexicana. Tudo isto se faz presente nos motivos, cores e formas traçados pelos dedos de Frida. Dedos quentes, dedos soltos, dedos mortos.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sobre corações expostos

"Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade", já dizia Clarice. Tenho começado a mudar faz um tempo, e os passos são de tartaruga. São lentos, rastejam, se movem aos poucos e em movimentos sutis. É contrastante com a velocidade suicida com que passa o tempo, com que se movem as ruas, os carros, as cidades. A mudança é lenta e nem sempre previsível, o passo às vezes é em falso. Tudo dói um pouco, tudo carrega consigo algumas pedras do tamanho de um morro no centro do nada, um imenso vazio. Como se tudo fosse urgente, inclusive correr, se esconder da vida e disto que chamam amor.
Viver dói um pouco, é preciso expor algumas marcas que nem sempre estamos contentes em mostrar. Aliás, em geral, temos medo de expor cicatrizes um pouco ainda abertas, mas se viver é uma delas, parece que a cada dia ganhamos novas marcas, feridas abertas, que podem ser expostas ou não, mas que ficam ali, à superfície, e ninguém precisa procurar muito para ver. Nós nos entregamos, mesmo sem querer, acabamos deixando nossas ataduras caírem e muitas vezes o medo é tão grande que nos apavoramos, e ficamos confusos, desastrados, diante de tantos paninhos quentes que insistimos em fazer malabarismos para manter nos locais adequados. Mas, onde seriam tais lugares? O que deveríamos ou não deveríamos mostrar?
Há muita gente por aí, andando com o coração na mão, à mostra e suscetível aos novos contatos, novas relações. Não que isto seja bom, ou ruim, mas faz parte da fragilidade humana. Abrir o coração e deixa-lo livre por aí tem lá suas vantagens... Todo mundo já se imaginou vivendo uma paixão louca, daquelas que você conhece em uma hora o grande amor da sua vida, viaja, têm noites românticas incríveis e passa o resto da vida com essa pessoa. envelhece ao lado dela. Constrói castelos de sonhos que no final são sonhos em formato de castelos - fortes e imponentes em uma vida vazia ou cheia de qualquer coisa.
Mas, infeliz - ou felizmente - poucos são os abençoados com tal dádiva. Em geral, encontrar alguém que você julgue que mereça entregar seu coração é mais difícil que a loteria federal. Exige uma seleção dura - e é bom que exija mesmo! Tudo bem caminhar lento e desapressado, tudo bem estar mais aberto, mais sensível ao mundo e às ofertas do mundo carnal, só não é justo consigo mesmo se jogar sempre de cabeça, mesmo sabendo que a poça é rasa e poucas vezes justa.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sobre ter coragem - em uma caixa de lata

Enfrentar o vazio é mesmo um ato de coragem, muita coragem. Olhar para a morte, olhar para a tristeza, olhar para o vazio e encontrar beleza neles, requer muita coragem. E eu achava que tinha coragem de sobra, pois me senti corajosa em muitos momentos de minha vida. Mas hoje entendo que coragem é algo muito mais grandioso do que eu sentia, pois enfrentar o vazio requer algo maior, uma coragem que eu não sabia que existia e muito menos que eu poderia ter. É essa coragem que precisamos para enfrentar nossa própria sombra, para desviar das muitas distrações que o caminho traz, para enfrentar os olhos desconfiados dos que nos cercam e confundem solitude com isolamento; é preciso muita coragem para olhar a morte na cara e parar para sentir a dor dilacerante que emerge dela; para sentir-se vazio; precisamos de coragem para entender e amar a grandiosidade que existe em nossa completa insignificância. Uma coragem que vem do seu próprio significado: no Latim coragem deriva da palavra “cor”, que tem a mesma raiz que a palavra coração.

- In Da morte, da solicitude, do silêncio.

domingo, 10 de maio de 2015

Memórias

E no meio desse furacão de coisas difíceis, eu tenho respirado fundo e vivido um dia de cada vez.
Como há semanas venho conversando com minha terapeuta, eu não posso controlar tudo, muito menos o desejo das outras pessoas. De tudo, ficam duas coisas: 1) quanto a meu pai, é difícil, mas ele está aqui. E o que pode ser feito, pode ser feito aqui. É isso. É o que está ao meu alcance, por ser psicóloga sim, mas acima de tudo por fazer parte de uma família linda que já passou por várias coisas e sempre se manteve unida e se dando força, mesmo que às vezes aos trancos e barrancos. Nós sempre conseguimos. E vamos continuar conseguindo, cada um fazendo a sua parte - e digo isso com muita esperança de que eu posso viver isso desta forma. Vou conseguir. O amor cura tudo. 2) Quanto à Tu, sim, ela se foi. E o que eu posso fazer agora é continuar amando-a como desde quando a conheci. Com a diferença de que fica aquele pedacinho de saudade que uma visita rápida não pode curar.

No meio disto tudo, muitas coisas antigas voltam... Memórias, lembranças e pequenas frustrações também. Olha, eu não sou corajosa assim não... Mas naquele dia eu sei que fui muito mais corajosa do que podia pensar que seria. E preciso continuar me surpreendendo com minha coragem. Tenho certeza de que aquele dia foi necessário, para que alguma coisa mudasse na vida de todo mundo. Eu sou uma pessoa melhor depois de tudo. Todos somos.
Vai levar um tempo ainda, pra essas dor passar e só ficar saudade, mas o bom é a certeza de que vai passar, sem que ninguém tenha passado ileso por ela. Infelizmente a Tu pagou muito caro, mas nós, que ficamos, repensamos algumas coisas também. Eu sei: a escolha era dela. E se ela quis assim, se precisou que fosse deste jeito, preciso aprender a acolher - mesmo que eu nunca entenda ou concorde!

Então agora, tudo pode ficar bem.

sábado, 9 de maio de 2015

A Down And Dusky Blonde

I fried my head, I'm not a brunette
I'm a down and dusky blonde
I am living in a tree
When I lie in bed I see
Beyond my lover's head the moon, I hear the rain

I am conscious of my voice as a tool
It's more demure
Than your friend the singing queen
With her matinee good looks
She talks like talking from a book
I speak the language of my village, of my street

But I need a friend and I choose you
I tell you the way I feel
The truth is crushing like a heel
I will forget the kiss and feel if you will too

Tell me tales of punk rockin' girls
It's a dim and distant page
But I mostly blame my age
Please make allowances for me
I do not see

It's a drag that you're getting old
I love to think about the year
When we sobbed and then we cheered
The town deserted like a film
The sun was baking dust for fun
Trees were withering by the day
Your torso crushing me
Into the country and the tunnels and the fields

But I need a friend and I choose you
I tell you the way I feel
The truth is crushing like a heel
I will forget the kiss and feel if you will do

I read a book a day, like an apple
But I did not eat
And so the doctor came to me
He said a woman does not live
By the printed word
Forgive yourself and eat

Autumn sped along outside
Trick photography on speed
I was locked inside a room
They made a deal, they would control
The simple things like bodies
But I kept my soul

When I needed someone I chose you
Because the fledgling soul awakes
And on the balcony she quakes
And she is waiting for the sign
And when the brother does not come
And when the sister's much to you, she chooses you

domingo, 3 de maio de 2015

Sobre não poder sentir

"A sociedade não criou espaços para se viver em sofrimento”. É triste alguém não poder se apresentar conforme seu estado emocional, sacrificar todos os dias a possibilidade de dizer como realmente se sente e, assim, buscar uma corda para subir do fundo do poço, esse sufoco angustiante de travar as lágrimas que o fará amarrar a mesma corda no pescoço.

- Maria Rita Kehl.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Chateada

Eu tive uma compulsão hoje, depois de muito tempo!
Não sei se foi compulsão também ou se eu só estou chamando assim. O caso é que eu devorei uma lata de leite condensado sozinha. Fiz brigadeiro e comi tudo - hoje e ontem! E claro, depois, ficou aqui a dona culpa e uma vontade gigante de vomitar tudo. Mas eu não vou fazer isso porque sei que ter que lidar com isso vai ser ainda pior do que lidar só com a culpa por ter comido. Ah, estou chateada! Estou muito chatada comigo, porque acho que não podia ter escorregado assim... 
E com um pouquinho de vergonha também. Fiquei aqui pensando... Tenho que falar sobre isso! Mas eu não estou com coragem para falar isso para a minha terapeuta. Nem acho que terei coragem de dizer para ela no começo da semana, quando nos vermos... Está meio difícil, sabe? Estou com muito medo de que volte a acontecer e eu não quero a bulimia nem a anorexia presentes na minha vida mais!

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

- Por Elizabeth Bishop.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Sobre o desejo e outros seres

Uma das músicas que mais tenho ouvido neste momento, o qu não quer dizer que ela é uma das minhas favoritas, mas que apenas tem me dito muitas coisas e também dado nome àquilo que tenho sentido, diz que "the future that we hold is so unfil", que o futuro que aguardamos é indeciso. Faz-me sentido porque é justamente o momento em que eu tomo decisões sem saber ao certo o que elas trarão como consequências para minha vida, não sei o que têm a me dizer, não sei sequer o por quê de ter optado por determinados caminhos e não por outros. Mais uma vez poderia entrar na questão das apostas e dos riscos, mas não quero falar deles agora. Neste momento me faz mais sentido questionar sobre a ética da vida sob o ponto de vista das escolhas. Digo das escolhas, simplesmente por serem escolhas. Foucault não me ajuda agora. Freud e Lacan, talvez. Sim, se pensar pelo lado do desejo como mantenedor da existência, se for olhar para o desejo, esse desconhecido que me leva a tomar uns ou outros rumos, pela birra de apenas querer. Sem saber ao certo porquê, para quê e em quê. Minha mais sincera indecisão às minhas escolhas. Minha sincera dúvida, minha sincera angústia. Meu desejo por vida. Que pulsa, que impulsa e expulsa. Ex-sisto.

domingo, 19 de abril de 2015

Sobre a angústia e o desafio de viver

Ansiedade baixou aqui hoje... Fez o coração acelerar e uma sensação gigante de fome tomar conta de mim. Aprendi durante a faculdade que o nome disso é angústia, nome que damos para aquela sensação de que realmente não se sabe dizer o que é. Ela vem, fica aqui, e não me deixa fazer nada, ao mesmo tempo em que quero fazer tudo, abraçar o mundo, correr 42km e chorar muito.
Sinto que ela será persistente nos próximos meses. Muito persistente, quero dizer. Vai me acompanhar toda vez que eu não souber muito bem o que será do futuro, como será o dia de amanhã, e como vou fazer para finalizar esse mestrado. A angústia vai bater  na porta toda vez em que a vontade de correr para casa for maior que a certeza da minha perseverança e da minha luta. Vai ser muito mais intensa quando eu duvidar de que vou conseguir realizar todos os meus sonhos. Vai ser gigante quando eu quiser gritar e a voz sumir da garganta. Vai ser quase insuportável quando eu pensar em tudo o que poderia fazer comigo, mas que escolho não fazer.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sobre a crise dos 23

"De que vale a conquista de uma independência que aprisiona? Acumular coisas e um suposto status de “adultidade”. Acumular títulos e méritos por algo que já não faz o menor sentido.
(...) Vou-me pela verde aleia da estrada, voltando atrás, para viver um romance com a vida, prosseguindo em busca de estradas perfumadas de tílias ou damas-da-noite. Sem peso em ferro ou ouro que me ocasiono a gangrena. Seguir firme ante o inesperado, e o que há de errado?"

In Obvius

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Até que ponto um "padrão de beleza" influencia?

Matéria comigo no Opinião e Notícia

Para nunca esquecer onde cheguei... E para onde não quero voltar!

Sobre decisões muito difíceis

É claro que nunca é fácil. Muitas vezes, decisões assustadoramente necessárias precisam ser tomadas, e elas te colocam naquele lugar em que você deseja nunca estar: na insegurança, na incerteza do chão em que pisa. Mas às vezes são justamente estes atos de coragem inimagináveis que dão um giro de 180º e tornam sua vida algo mais gratificante de viver. Sei que é duro, mas vez ou outra nós precisamos reconhecer que foi feito o que era possível e o que estava ao alcance, e que chega a hora de dizer "deu para mim. Não dá mais". E, então, partir para outros rumos, trilhar outros caminhos, desbravar o desconhecido, e correr o risco de se apaixonar por alguma esquina nunca vista que se encontra ali na frente. Meu amor, este é um bravo gesto, como tantos outros que você já precisou tomar nesta sua vida de menina determinada e previsível. Mas você se posicionou, peitou seu desafio e sustentou-o até o fim. Você merece mais que mais um dia comum, mais que um final de romance mamão com açúcar. Você é obstinada e quer crescer, quer provar outros ares, quer conhecer outros mares, você quer correr os riscos. E o que é a vida se não um grande perigo? Tudo são apostas. E todas elas cobram respostas, consequências, e têm suas limitações. Você escolheu algumas e pôs toda a sua fé nelas. Ainda bem que você tem fé de sobra. Ainda bem que você acredita muito. Ainda bem que você luta.
Certa vez te disseram, e isso marcou sua vida profissional, mas também o ser que és... "A coisa mais bonita nesta vida é ser fiel a si mesmo. Porque a gente nunca deve se esquecer de quem é, nunca deve ir contra o que pensa". Então você não vai, mesmo que reconheça que o caminho é difícil, tortuoso e cheio de pequenos fantasmas nas esquinas. Mas você empunha suas espadas, você protege seu coração, você alimenta sua alma com todo o amor que pode dar. Então, não fraqueje, não deixe de acreditar. Siga. Se for preciso, feche os olhos quando ficar com medo, mas não deixe de segurar na mão de quem a oferece porque a ama; e dar o próximo passo.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas.

sábado, 28 de março de 2015

Sobre a morte, com meus dedos

A morte nunca é uma coisa fácil de viver. Aliás, ela é muito difícil e em ambos os casos, tanto para quem vai, quanto para quem fica. Essas últimas semanas, em que ela esteve rondando minha vida por tocar pessoas próximas, eu comecei a me perguntar um pouco mais sobre ela... Lembro que meu primeiro contato com o tema "morte" foi na adolescência, quando eu tinha de 13 para 14 anos, e em 2005, Markus Zusak publicou A menina que roubava livros. Esse livro acompanhou minha adolescência e continua por perto, agora na vida adulta. O amor à primeira vista foi por dois motivos: minha paixão enlouquecedora pelos livros e pela biblioteca do JAM, em que passava mais tempo do que na sala de aula; mas também foi porque foram nos anos ali por perto que eu comecei a perder pessoas importantes, depois de pude entender que a morte as levava e era para sempre.
Eu havia me encantando com o tema Morte, embora ainda não imaginasse que chegaria mais perto dela com a faculdade.
Logo no começo da graduação, com a disciplina de Psicologia do Desenvolvimento, eu me interessei pelos dois últimos capítulos do livro sobre desenvolvimento humano, do Eizirik: A velhice e A morte. Não por terem correlação direta, porque NÃO TÊM, porque convivi com muitas provas de que a velhice pode chegar e ser cheia de vida! Mas, hoje sei que há um porquê, e não é à toa, seguir com tanto afinco pelos caminhos do envelhecimento humano e, mais especificamente, do meu interesse pela velhice e pelo morrer, como categorias distintas, afinal, bebês, crianças, adolescentes e adultos jovens também morrem. Saber que um dia todos nós vamos morrer me instigou a viver.
A menina que roubava livros, Solidão dos Moribundos, Sobre a Morte e o Morrer, As intermitências da Morte, Ritos de Infância, As Criadas, A Valsa nº 6... Todos eles me ensinaram um pouquinho. Foram textos e mais textos - leituras, ensaios, encenações. "Morri" em palco também, várias vezes, com Helena, com Claire, com Sônia - fomos companheiras do início ao fim. Ainda me arrepio quando recito Sônia, na Valsa... "Um defunto contamina tudo ao seu redor - a mesa e a dália". Todos estes textos me prepararam com forte consistência teórica para entender a Morte, para dar algum conforto aos idosos, no Asilo, quando eu podia sentir que era a última visita. Mas, eles não me prepararam para encarar a morte como uma "perda pessoal". Então, me peguei pensando nesta semana nas pessoas que passaram por aqui, que estiveram por perto, e especialmente do dia em que minha avó paterna faleceu... Eu conversava com uma amiga e ela dizia "você chegou em uma idade em que começa a perder as pessoas". Não sei se há uma "idade" para isso, mas sim, eu cheguei... E me assombro ao perceber... Eu não estou preparada. Aliás, quem está?
Lembrei de um texto de Rubem Alves, pouco antes de sua morte... "A gente devia ter uma especialidade destinada a cuidar das pessoas diante da chegada da morte, assim como há a obstetrícia para cuidar da vida que chega"...
Aliás, há muitos "a gente devia" com relação a isto... A gente devia falar mais sobre ela, a gente devia ser mais claro com as crianças diante das angústias de perder alguém, a gente devia se preparar para viver este dia, o de morrer, por que não? Se a Morte pudesse ser vivida efetivamente como uma última etapa da vida, morrer seria mais leve. E viver também.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sobre hoje

Ter vinte e poucos anos não quer dizer nada. Trinta. Quarenta. Quinze. Vinte. Noventa. O que importa, no fundo, é quem você é quando está sozinho. Como você é quando está acompanhado. O que sobra quando a luz apaga. O que resta quando o sol acorda.

- Clarissa Corrêa

terça-feira, 24 de março de 2015

Noite e dia

Não me agradam essas coisas
que despertam barulho,
susto, água fria
tudo na minha cara
mais nenhum sonho por perto.

Não me agradam essas coisas
que adormecem vazio,
escuro, calmaria
tudo que lembra morte
quando nada mais dá certo.

Não me agradam
essas coisas sem poesia
uma noite só noite
um dia só dia.

- Alice Ruiz, in Noite e dia

Sobre viver um dia de cada vez

Transformei a dor em poesia várias vezes nestas últimas semanas. Foram vários os dias em que viver parecia demais para mim. Mas sempre, intercalado a dias em que é um pouco mais possível viver. Por  mais que doa, e que esse sentimento não seja gostoso de sentir, eu sei que preciso sofrer agora para que não fique para sempre aqui, para que depois eu possa deixar passar e doa cada vez menos...

segunda-feira, 23 de março de 2015

Respira. Não pira.

Essa vontade maluca que invade e faz você sentir que seria capaz de correr em volta do mundo três vezes e quebrar um recorde qualquer...
Desaparece!

Das compulsões e outras pequenas manias

Assisti a este vídeo e li o texto da página. Achei riquíssimo - e recomendo! Fez-me pensar em sintomas e em como eles podem encobrir nossas verdadeiras inquietações. Afinal, como desaparecem a compulsão alimentar e, de repente, a conta do cartão de crédito estoura, ou os exercícios físicos se tornam a coisas mais "gostosa" de se fazer. A busca por minimizar sofrimentos, na realidade, não pode basear-se na eliminação de sintomas, mas na busca por um conhecimento mais profundo acerca de si e de seu mundo. 

sábado, 21 de março de 2015

Sobre o tempo e surpresas na esquina

Tarde de final de semana nublado e com chuva sempre vai lembrar minha infância e a casa da nona. O cheirinho de pipoca e o gostinho de mate doce, a família reunida, e quem sabe até um fim de tarde correndo na rua, com os amigos. Mas, há alguns anos as coisas mudaram... A casa da nona não existe mais, troquei o imenso quintal e a cidade pequena por uma metrópole e centenas de prédios. Dos amigos, alguns vários partindo. A vida é essa coisa maluca, sem muita explicação; e esse tempo, por mais que eu tente, não posso entender. Então hoje, me peguei olhando aqui do alto do meu prédio para esse céu cinza lá fora, tão raro aqui no Rio, e pensando no tempo, essa surpresa na esquina; e sentindo o cheiro da pipoca, porque hoje aqui em casa não tem pipoca, nem mate doce. Somos eu e Freud - e uma dissertação.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Do fim e suas fatalidades

Bernardo Rezende, empapado de suor e magnífico, agitava os braços com frenética energia. O Destino fazia ainda ouvir as suas pancadas pressagas. Mas o homem prosseguia no seu  canto de vitória.
Lutar... - repetia Tônio para si mesmo. Aceitar o desafio da Fatalidade. E, ante suas batidas à nossa porta,  erguer a cabeça, cerrar os punhos e dizer: "Pode entrar. Estamos prontos!".

- Erico Veríssimo, in O resto é silêncio, p. 382.

Sobre olhares e silêncio

Mas havia silêncio sobre a cidade branca, no cimo da colina. Na sombra da noite, as estátuas pareciam seres misteriosos reunidos para um congresso de silêncio.

- Erico Veríssimo, in O resto é silêncio, p. 379.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dor voltou. Bateu. Abri

Hoje a tristeza bateu com força na porta de casa. Bateu e mesmo que eu dissesse que não queria que ela entrasse, não me ouviu. Chegou derrubando com tudo, destruindo tudo, deixando meu coração em pedaços, levando como um rio de lágrimas e muita dor.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Para acalmar - ou desesperar - esses últimos dias

O desejo de morrer pode ser uma oportunidade?

O que leva uma pessoa em sofrimento a considerar o suicídio geralmente é uma falta de perspectiva. Parece não haver saída! A vida torna-se insuportável.

Sob um outro olhar, pensamentos de suicídio podem não ser simplesmente o desejo de morrer. A angústia de desejar o próprio fim pode estar encobertando um desejo ainda maior de VIVER. Viver verdadeiramente e deixar morrer a sub vida que se levava. Quando vamos nos abatendo pelas dificuldades que vivenciamos; quando abrimos mão sucessivamente de realizarmos aquilo que desejamos; quando escolhemos segundo os valores dos outros; quando nos submetemos a modelos que não se adequam a nós; vamos nos distanciando de nós mesmos, como se nos matássemos pouco a pouco. Perde-se a autenticidade ao ponto de não mais reconhecer a si ou a vida que se leva. Parece não haver solução.

É preciso ampliar o seu horizonte, duvidar desse esgotamento de possibilidades e começar a buscar brechas para respirar!

Outros sofrimentos agudos também podem ser um indicativo de que algo em nosso modo de viver precisa morrer. A partir desse alerta podemos observar a vida que escolhemos. Sim, escolhemos. Podemos acreditar que a nossa situação atual seja culpa da condição social ou lugar em que nascemos, ou seja por causa de nossa família, da sociedade, do nosso cônjuge, chefe ou quem ou o que for.

Quando você tem um problema no trabalho, quando tinha uma desavença na escola, quando discute com seu parceiro(a), quando se aborrece com seus pais ou seus filhos, quando se estressa na rua, quem estava presente em todas essas situações? Você! Logo, quem pode ser responsável por tudo isso?

Não se trata de se culpar e se punir. Responsabilizar-nos por nossa própria vida nos traz grande liberdade. Podemos decidir ser mais felizes. Nossa felicidade não depende mais das decisões dos políticos, da compreensão dos familiares, nem do comportamento da nossa amada(o). Cabe a nós escolhermos o que nos faz bem e abandonar velhos padrões de comportamento, pensamento e emoções. Então, comece agora. Que vida quer trilhar? Desista de todas as justificativas ou desculpas que lhe impedem de ter a vida que almeja. Mesmo quando estamos diante de situações difíceis que não estão sob nosso controle, ainda temos poder sobre como nós lidamos com isso.

Avalie com cuidado: o que preciso fazer diferente para viver melhor? Comece hoje pelas mudanças que já estão ao seu alcance!

- Fernanda Alcantara, in A Arte de Si.

terça-feira, 17 de março de 2015

Sobre a morte

De reto - refletiu ele- todos traziam um morto na na memória. Cada ser humano tinha a sua princesa morta. Tônio descobria uma acentuada tendência necrófila nas pessoas. Apegadas a coisas e seres defuntos. Em vez de imaginar que os seus mortos continuavam a viver em alguma parte do universo, como um espírito, uma ideia, uma árvore, uma flor, um fruto, um talo de relva ou uma pedra - ficavam-se  idolatrar e arrastar ao longo de toda a vida um cadáver, um corpo em processo de dissolução, um esqueleto, uma imagem macabra. (...) Por que uma palavra triste para a princesa que morreu?

- Erico Veríssimo, in O resto é silêncio, p. 362.

domingo, 15 de março de 2015

Lembra?

Lembra o tempo
em que você sentia
e sentir era a forma
mais sábia de saber
E você nem sabia?

- Alice Ruiz, in Lembra.

Parada cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

- Paulo Leminski.

Perder dói. Dói de um jeito que não posso explicar

Há algo aqui dentro que ainda não passou. Eu sei que tem alguma coisa que quer sair, mas que ainda não consegue, uma coisa que ainda não pode sair, porque está presa demais, amarrada com força, para que a sensação de vazio não volte. Por mais que doa ter algo preso aqui dentro, ainda parece ser uma possibilidade melhor que a dor do vazio, de não saber o que fazer com o que fica daquilo que não ficou.
Perder dói muito. Dói demais.

Dias cinzas

Quando tudo fica cinza,
para onde é
que o sol se vai?

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sobre vidas que se vão

Quando decidi que faria psicologia, isso vários anos atrás, ainda quando eu sequer sabia o que uma psicóloga fazia direito, eu acho que já acreditava que é preciso falar sobre a dor, e que a dor, quando compartilhada, dói menos.
Hoje, quando pessoalmente eu sou mais madura - e já vivi um bocado de coisas e senti uma porção de momentos de distintas dores na minha vida pessoal e também na profissional - eu continuo achando que falar da dor é importante, mas que infelizmente ela não pode curar tudo, sempre, e nem dar garantias de que a dor passará em algum momento enfim, por mais que falemos dela.

Tu, eu queria dizer que não consigo imaginar até que ponto foi a sua dor, antes de você fazer o que fez, e que eu sinto muito por ter tentado respeitar seu espaço e ter sido espaço demais, sinto por não insistir um pouco mais sobre conversar. Não sinto por não ter evitado, porque sei que nem eu nem ninguém teria sido capaz; mas eu sinto por não ter dito que gostaria que você ficasse um pouco mais.
Depois que tudo aconteceu, parecia tão óbvio... As fotos, os textos, as músicas... Você colocando seu guarda-roupas todo à venda. Agora, realmente parece óbvio, mas naquele momento, quem poderia juntar os pedacinhos e acreditar? Talvez se tivéssemos falado sobre as fotos, sobre os textos, sobre as roupas... Talvez se tivéssemos falado sobre a vida, se tivéssemos falado...
Mas não falamos. Não falamos e a dor ficou contigo. Não falamos e ela foi maior do que você podia suportar. Não falamos sobre alternativas, sobre o que podíamos fazer com ela, sem que você fizesse nada com você.

Mas agora que não podemos mais falar sobre a dor, a única coisa que vai ficar é o silêncio. É o silêncio da interrogação, da pergunta, da questão que começou e não terminou. O silêncio que vem com a incompreensão de todos sobre onde foi que se errou.
O silêncio que vem "quando seus amigos te surpreendem, tirando a vida de repente, e não se quer acreditar". Então, não vou dizer que eu entendo. Eu te digo que respeito, que a decisão é sua, mas eu não vou entender nunca.
Fique com Deus, Tu. Todos amamos você.

sábado, 7 de março de 2015

Sobre hoje...

Olha só, eu sei que você não está legal. E acho que dá para entender, você tem lá os seus motivos, por mais que eles pareçam bobos, besteira, que sejam somente fruto da sua insegurança.
Você não está bem e, primeiramente, é porque realmente adoeceu esta semana. Não dá para não ligar para o fato de que você ficou deprimida. Se estar doente já não é legal, soma à sensação de não ter ninguém por perto. E essa chuva insistente lá fora...
E, agora, em especial, é porque você pegou uma calça jeans do ano passado, e outra, e outra, e outra.... E estão todas apertadas! É claro que você ficou infinitamente chateada, brava, irritada, ou seja lá que nome isto tenha! Mas, meu amor... O que sei é que você não pode ficar dando força pra isso, não dá pra ficar pensando, buscar soluções não são uma boa alternativa. Mas agora, não vem outra coisa em sua cabeça a não ser querer encontrar uma solução para isso que sente.

Olha, não é legal o que você está com vontade de fazer agora, isso que está pensando... Não é bem assim, que se tudo já "está perdido" mesmo, então você joga tudo para o alto de uma vez...
Não, não é: Faz um brigadeiro, come e se arrepende depois. E aí vê o que pesa mais, literalmente engolir a culpa e deixar como está, ou vomitar depois e ainda correr o risco de agravar a lesão no seu estômago.
Querida, por que você não pode lidar com seu desagrado, seu vazio e assim suportá-lo fazendo uma dieta normal, na qual você poderá se orgulhar de ter dado conta de você?Meu amor, NÃO! A responsabilidade não é sua! A decisão sim.
Não fica com toda essa raiva aí dentro de ti, não... Fala dela, mas não deixa ela se voltar contra você!
Não faz isso, não... Não machuca seus braços, não fere ainda mais seu estômago, não deixa essa voz aí na sua cabeça gritar mais alto que a sua razão.

Não deixa não...

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre o que mais eu aprendi ao ficar doente

Sobre "as coisas que aprendi ao ficar doente"...
Lá estava eu, em meu segundo atendimento em menos de 24 horas, na emergência do hospital.
Para começar, eu achei bonito, até certo ponto, quando duas senhoras sentadas ao meu lado falavam sobre a fragilidade do ser humano. Foi realmente muito bonito ouvi-las conversando sobre a dor e sobre não haver qualquer diferença entre cada um de nós, que estávamos ali, "todo mundo passando mal. Não importa se é branco ou negro, se é pobre ou rico, se está pagando particular ou se é pelo SUS..., o ser humano é muito frágil"! E é mesmo, por isso é que é preciso ser e ter cuidado, em cada detalhe. Porém, o que veio a seguir me incomodou, quando uma delas comentou o descaso que sentia por parte dos profissionais que estavam "lá atrás, no horário de descanso, nem ligando para todo mundo que estava passando mal na recepção". Opa! Gente, PROFISSIONAL DA SAÚDE TAMBÉM É GENTE! Profissional da saúde, para cuidar, também precisa de cuidado... Precisa trabalhar até 8 horas (quando não possível menos!) por dia, ter horário de almoço para comer sossegado, tirar o jaleco e ligar para casa, conversar com as pessoas que ama, se encontrar com os amigos. Profissional da saúde também precisa ir ao barzinho ou àquele restaurante bacana no final de semana. Profissional da saúde também tem estresse, pega atestado por doença, perde a paciência. Profissional da saúde também é gente! E merece o horário de descanso, de se desligar das pessoas que vai atender daqui a pouquinho, quando a folga acabar. A conversa reacendeu em mim antigas inquietações, lá do 4º ano da graduação, em Psicologia do Trabalho, quando eu relatava a uma professora fantástica que marcou minha vida e minha profissão sobre o quanto me angustiava pensar em "quem cuidará dos cuidadores?". Então eu respirei fundo e lembrei que tem que ter paciência, a vida é assim mesmo, nem sempre quando a gente quer, e é claro que o tempo se arrasta quando se sente dor (e eu que o diga!), mas sabe?! Foi com gentileza que eu ouvi aquelas senhoras dizerem aquilo, ali no meu cantinho, quietinha com a minha dor e com a minha paciência, eu juro que entendo, mas jamais poderia concordar. Só que, no final das contas, eu achei que tudo bem... Porque eu entendo que aquela médica linda, que me atendeu e depois me deixou esperando sim, por uma hora, enquanto meu hemograma ficava pronto, a medicação fazia efeito, e ela tirava seu descanso no meio do turno; me atendeu com a maior gentileza e docilidade do mundo porque ela estava bem com a sua profissão e o caminho que escolheu para si. E reflexo disto foram as informações claras, precisas, e a eficiência com que me orientou quanto aos cuidados que eu precisaria tomar pelos próximos dias. Ela também me entendia. E o bom e velho costume continua valendo... Gentileza gera gentileza! Uffa, ainda bem!

E só para constar... Ando MUITO MUITO MUITO feliz pela minha escolha de ser profissional Psi, depois de tudo! Foi a escolha mais acertada da minha vida - e olha que eu acho que fiz muitas escolhas acertadas!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Para noites em que a vida nos indigna um pouco mais

“Descobrirás que não és a primeira pessoa a quem o comportamento humano alguma vez perturbou, assustou ou mesmo enojou. Não estás de modo nenhum sozinho nesse ponto, e isso deve servir-te de incitamento e de estímulo. Muitos, muitos homens se sentiram tão perturbados, moralmente e espiritualmente, como tu estás agora. Felizmente, alguns deles deixaram memórias dessa perturbação. Hás-de aprender com eles… se quiseres aprender. Tal como um dia, se tiveres alguma coisa para dar, alguém há-de aprender contigo. É um belo tratado de reciprocidade. E isto não é instrução. É história. É poesia.”

Sobre a diferença entre estar só e sozinho, parte II

Soma a ficar doente, estar sozinha, longe de casa....
Não dá para saber o que dói mais!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Sobre a diferença entre estar só e sozinha

Faz tempo que eu entendo que não há qualquer problema em se ficar sozinha. Eu adoro chegar do trabalho e ter um quarto só para mim, adoro poder decidir o que vou comer no café da manhã e se será em casa ou em algum outro lugar. Eu amo poder decidir se no jantar terá japa ou macarrão. Gosto de estar sozinha entre meus livros, ouvir as minhas músicas, decidir minha roupa sem me preocupar se está bom para os outros ou não, decidir o filme e qual será o horário. Tenho todas as certezas de que adoro fazer um zilhão de coisas sozinha. Mas descobri também que eu detesto estar só, e que hoje, pela manhã, quando eu precisei me virar e chegar a um hospital sozinha, passando mal, eu estava só e detestei aquilo. Eu queria colo, consolo, carinho. Não era por estar sozinha.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Quando o sucesso é uma promessa

Acho que sempre bate esse desespero, quando a gente percebe que tem responsabilidades muito grandes nas mãos. Principalmente quando percebe que aquilo que você diz e quer é difícil de conseguir e que, se for seguir pelas probabilidades, é muito mais possível que nada dê certo do que o oposto.
Então eu acho que é isso... O preço da promessa é muito alto e você tem medo de não conseguir arcar com ele, então desaba. E você queria muito acertar, por isso a decepção é tão doída. Há três dias você estava tão certa de que tudo ficaria bem, de que você conseguiria... E agora você é uma criança assustada com medo dos monstros no escuro. Só que não há monstros no escuro. Nós é que estamos todos ali. Nós é que construímos nossas incertezas e damos forças à nossa insegurança. Somos nós, ninguém mais. Somos nós também que temos que responder por elas, nós que temos que lutar com mais força justamente quando nossas pernas cedem e os braços doem. Precisamos de força, de mais força, de muita ajuda. Precisamos pedir ajuda e aceitá-la, e permitir que se aproximem para nos ajudar.

Sobre coisas que a gente acha que a humanidade já teria superado...

"Que palhaçada foi aquela? Eu, mais de 100 quilos, não poderia ter fugido? Ele estava bêbado, não podia ser tão difícil. Sim, palhaçada. Voltei a ser criança. Sim, palhaçada. Cinco anos com medo dos monstros no escuro. Sim, palhaçada. Chorando chamando minha mãe. Sim, palhaçada. Descobri que não havia monstros no escuro. Sim. Palhaçada. Sinônimo. De. Mostro. É. Ser. Humano.
(...)
Quem ficou ali não era a mesma garota de 17 anos de sempre. Era o resto do resto. Os pedaços quebrados. Os frangalhos. Os cacos. A poeira sob os pés da humanidade".

- Texto completo em Mulheres e suas crônicas

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Distraída

Hoje vivi uma cena linda, que me fez pensar em muitas coisas...
No horário do almoço passei em uma loja de departamentos e, esperando na fila do caixa, havia três meninas na minha frente. Colegiais, não mais que 12 anos, de uniforme e shorts curtinho. Elas conversavam animadamente e quando cheguei na fila uma delas, a menorzinha, ficou olhando fixo para meu peito. Eu até pensei que fosse para o decote, já que estava com uma blusinha um pouco decotada, mas não era nada demais, que chamasse atenção. Aí lembrei, eu estava de colar. Ela olhava admirada para o anjinho do meu pingente, até que exclamou: "Que lindo! Eu tinha um assim!". Eu sorri e, instintivamente, o segurei entre meus dedos dizendo "é meu anjinho da guarda, o meu protetor" e lembrei que ele foi um presente de pessoas muito especiais... Logo em seguida, a mesma menina emendou: "De onde você é?". Fiquei surpresa! "Nossa, você me pegou rapidinho pelo sotaque! Eu não sou daqui, eu sou do Sul!". E uma de suas colegas falou "que legal, lá deve ser muito bonito". Então a primeira menina que falou comigo disse que sua irmã morava em Porto Alegre e que ela queria muito conhecer. Eu, como boa sulista que sou, disse que se elas tivessem oportunidade fossem conhecer, que o sul todo é muito bonito. E então, uma delas, a que ainda não havia dito nada, chegou pertinho do meu rosto, exclamando: "Que lindo seu olho! Ah, você é muito sortuda! Você é muito bonita!", e suas amigas assentiram com um sorriso e foram chamadas pela caixa, para pagar suas compras, dois pacotes de guloseimas...
E eu fiquei ali, esperando a minha vez, e pensando no que elas disseram e no que representava aquele momento mágico em que três estranhas, com metade da sua idade, passam pela sua vida por pouco mais de um minuto, e têm o poder de transformar seu dia em algo inesperadamente melhor.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

- Mia Couto, in Idades Cidades Divindades.

Sobre amores que se vão

Como belos pares de olhos brilhantes, algumas pessoas se vão.
Elas não podem ficar.
Elas se vão quando já fizeram o que tinham para fazer.
Se vão quando sentem que estão de missão cumprida ou com o coração um pouco pesado demais. às vezes, elas simplesmente vão porque querem, porque cansaram de ficar. Essas são aquelas pessoas, em geral, mais incríveis. São aquelas pelas quais, invariavelmente, a gente se apaixona. Se apaixona pelo ar de desapego, pela necessidade de sentir a rejeição. Quem nunca amou demais? Afinal, quem nunca amou tanto ao ponto de sufocar aquele outro com tanto amor?
Não, não se engane. Ele não se foi porque você o amou; se foi porque não pôde suportar ser amado.
Eis sua mais nobre missão, mas, infelizmente, poucos sobrevivem a este primeiro amor. E se vão.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sobre meias verdades, relutantes

 - Tu vês... A gente não sabe nada de nada, vive lidando com meias verdades... ou com verdades provisórias...
 - Ou transitórias...
 - Exatamente. -- Tônio levantou-se e caminhou até a lareira, passou a mão pela calva de Pou-Tai. -- Mas a gente não pode prender uma personalidade num conceito, numa fórmula. E muito menos a vida!

- Erico Veríssimo, in O resto é silêncio, p. 75-6.

Sobre a arte imitar (fabricar?) a vida

Tônio ficou a buscar palavras com que pudesse descrever aquela paisagem. Se fosse pintor - refletiu - seus dedos estariam ardendo por tomar dum pincel e prender na tela as cores daquele horizonte volúvel. Sim, o que há no fundo de todo artista é ainda o menino. O menino que olha o mundo e diz: "Eu também sei fazer um céu como aquele, flores iguais às deste jardim, pessoas como aquelas que lá vão". Há também meninos que em assomos de orgulho exclamam: "Eu sei fazer um mundo mais bonito!". E aí estava a razão pela qual a arte tantas vezes superava a vida. Quanto aos surrealistas, cubistas, etc..., são meninos esquisitos que gritam: "Eu sei fazer um mundo diferente!".

 - Erico Veríssimo, in O resto é silêncio, p. 68.

Crônica para uma terça-feira de Carnaval

Quis fazer um programa mais hippie hoje! Resolvi trocar meu tênis e a academia pela areia da praia. Faz tempo que eu observava várias pessoas correndo na areia e, embora eu adore correr na praia, sempre vou pelo calçadão. Que tal tentar algo diferente hoje? Sempre tive a impressão que caminhar na areia cansa muito, afinal mais de uma vez caminhei pela praia com amigas e me sentia exausta com poucos minutos. Logo eu, a corredora de alguns quilômetros há anos.
Pois bem, o dia era hoje!

Acordei cedo, levantei, tomei o café levinho de sempre, já que sempre faço atividade física pela manhã, e me mandei de top e chinelo havaianas para a praia de Icaraí. Dia meio nublado e não tão quente. Ótimo para fazer exercício ao ar livre. E embora fossem recém 8h de uma manhã de terça-feira de Carnaval, encontrei muitos companheiros da jornada dos exercícios físicos matutinos andando e correndo por lá. O que mais chama atenção? Muitos deles – e isso quer dizer uns 90% - eram idosos! Sim, idosos, desde os mais jovens, de 60, 70 anos, até idosos que me pareceram bem mais velhinhos, na casa dos 80, talvez 90 anos. Eu correndo que nem maluca, para não baixar meus 11km/h da esteira, e eles, cada um no seu tempo. Dei duas voltas na orla e encontrei alguns as quatro vezes, entre minhas idas e voltas. Eu pude observar por alguns segundos aqueles cabelos brancos, os olhos profundos, as peles flácidas e de múltiplas tonalidades; as múltiplas etnias também: descendentes de europeus, asiáticos, negros e os bem "brasileiros". Todos compartilhávamos a mesma praia! E me parece, sabe o quê? Que eles adoram estar lá! Que eles estão curtindo muito aquela manhã não tão quente de uma terça-feira de Carnaval, que estão curtindo seus companheiros de jornada nos exercícios matinais, já que muitos estavam acompanhados, em casais e entre amigos. Então, me parece que aquilo era mais que uma caminhada ou exercício físico, era também convivência, socialização, qualidade de vida. Era exercício físico por prazer, pelo prazer de pisar na areia fofinha, pelo prazer da conversa animada e sem propósito maior, pelo prazer de estar junto, de poder olhar a vida com aqueles olhos penetrantes de quem já viu algumas coisas pelo caminho. Era simplesmente um estar lá e se satisfazer com aquilo.

Depois da minha corrida, quando voltei para a calçada e coloquei os chinelos, quando senti uma dorzinha leve na panturrilha, eu pensei nos velhinhos da orla da praia de Icaraí. Quero chegar lá também, eu quero chegar a estar assim: estar porque quero, não porque preciso; com quem quero, não porque preciso; quando quero, não movida pelo resultado, mas pelo processo.

E a corrida? Bem, em meia hora eu sentia o mesmo cansaço de duas horas na esteira ou na rua, então, a não ser que alguém me jure que fazendo isso eu não vou ter celulite nesta e nas próximas três vidas, eu continuarei correndo com meus tênis só na calçada, e sentindo a areia fofinha quando for para estar de biquíni, na praia, só pelo prazer de estar lá.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Sobre a decepção e outras pequenas esperanças

Dizem que decepção é problema de quem sente, e deve ser mesmo, mas, se me permite dizer, dói! Dói pra caramba! Às vezes dói até mais do que quando quem erra é você. Expectativa demais, esperança demais. Simplesmente você espera que aquele outro seja completamente diferente de todos os outros, mas ele não é. E aí, é claro que fica a dúvida: ele é igual a todos os outros, que não oferecem nada demais, ou você é que é exigente demais? É, porque, às vezes, é você quem está esperando que o outro seja perfeito, e então, meu bem, você nunca vai encontrar; jamais haverá alguém como você espera.
Não sei, só fica para pensar...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Sobre direitos concedidos

Tenho só vinte-e-quatro anos, e muitas vezes me pergunto se minhas lembranças são tão claras. Às vezes fico convencida de que elas são recordações de outra pessoa que eu absorvi. (...) Às vezes me pergunto se a gente não passa tempo demais juntos, dia após dia, trabalhando e comendo lado a lado, dormindo nos mesmos cômodos, fundindo nossos sonhos. Às vezes me pergunto se sabemos onde cada um de nós termina e onde os outros começam.

- Achy Obejas, 1996, in Memory mambo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Um ano depois...

Nesta semana faz um ano. Seu primeiro aniversário daquele último dia. Da última vez. Você ainda se lembra?
Sim, eu sei que lembra. Lembra-se como se houvesse sido ontem, não é?
Um dia de trabalho, parecia normal, você pôs seu uniforme, acordou cedo, não tomou seu café, saiu às pressas, estava atrasada alguns poucos minutos. Caminhou rápido e o dia estava tão quente. Você transpirava - muito! Chegou cedo, embora estivesse um pouco atrasada. A loja estava vazia. Você e aquelas estantes, a mesa, seu computador. Só você. E mil e um pensamentos. Você estava ansiosa... Sua formatura chegava. Seria um grande dia. No dia seguinte você pegaria seu vestido, aquele dos seus sonhos, desenhado pelas suas mãos, todo cheio de pedras prateadas, em um tom azul da cor do céu. Da cor da esperança que havia em seus olhos e em seu coração. Mas ele estava fraco, ele, seu coração. Um pouco de dor na garganta também. Você se lembra de como doeu quando vomitou o jantar na noite anterior? E no almoço também? Aliás, você lembra que estava sendo assim há alguns dias? Eu sei que lembra, você não poderia esquecer. Como não esquece daquele dia.
Você chegou no trabalho como um dia normal, mas sentia frio. Foi para casa no horário de almoço e apenas dormiu. Você mentia muito também, era uma boa atriz e a época era de grandes mentiras. Mas naquele dia, dizia a verdade. Você não sentia fome - e sentia um pouco de dor. Na cabeça, na garganta, no estômago.
Mesmo assim, voltou para o trabalho. Não falou com ninguém. Você se lembra de como pediu ao seu chefe para ir até a farmácia e de como ele não se solidarizou com você? Aquilo te deixou com raiva, não é? Então, para provar que era forte, você ficou. Você ficou no trabalho por mais tempo do que deveria, você deixou seu coração bater sozinho por mais do que ele poderia, você demorou para pedir ajuda, e quando pediu, ela estava distante.
Sua mãe demorou a chegar, mas ela chegou. Te colocou no banco de trás do carro, como fizera outras vezes quando você era pequenininha. E você não esqueceu. Você acordava e dormia, naquele banco da emergência do hospital. Você via sua vida indo aos pouquinhos, você ouvia sua mãe batendo boca com a enfermeira ao longe, chamando um médico com pressa. Você sentia a mão dela na sua testa suada e quente, você sentia aquelas mãos fortes segurando as suas mãos geladas. Mães... Elas deviam ser eternas, estar para sempre com a gente.
Você sentia a dor, a sua, que era muita, que era gigante. Mas também a dela, que era maior ainda. E você sabia, que se ela te perdesse, a culpa era sua. Algum tempo depois, já em sua cama, em sua casa, você chorava com lágrimas do coração. Você pedia desculpas, você ouvia sua mãe dizendo que andava preocupada, que sabia que as coisas contigo não iam bem. Ah, e como ela sabia! Não iam mesmo. Você queria morrer. Você poderia morrer para ficar bonita dentro daquele vestido azul-cor-de-céu-com-pedras-prateadas.
E você se lembra de como passou aqueles dias seguintes de cama, de como foi assustador quando o médico disse que somente com muita sorte você estaria bem para a sua formatura? Você lembra do seu desespero? Lembra-se de como você chorou mais forte depois daquilo?
Você se lembra, não é? Não há como esquecer.
Mas você sobreviveu. Você viveu seu baile de formatura e dançou a valsa com seu pai, você o viu sorrindo naquele dia, como não lembrava de tê-lo visto antes. Você viu o orgulho em seus olhos e refletiu na marca roxa do soro médico no seu braço esquerdo. Naquela valsa você lembrou da dor. Do medo de morrer, do medo daquilo que ia perder, da dor que ia infringir. E você fez uma promessa, também: você queria superar aquelas coisas todas, você queria viver, você queria voltar a ser a menina um pouco gordinha que jogava béts com os meninos na rua.

E de lá para cá, um ano passou. Você ficou um ano mais velha, um ano mais forte, um ano mais apaixonada pela vida e por tudo o que ela tem oferecido.
Olha, nós sabemos que este último ano não foi fácil. Você perdeu tanto ao ganhar. Você fez trocas pesadas, mas todas justas - e você as honrou como se honra uma promessa. Você não se decepcionou. Você superou todas as suas expectativas. Você tem sido feliz, não tem? Você tem amado mais do que poderia. Você tem sido tão presente quanto achou que conseguiria. Você continua lutando. Você continua, linda!
Você não desiste, nunca, não é?
Ao mesmo tempo, você não conseguiu fazer tudo o que queria. Não conseguiu deixar essas coisas para lá - elas ainda te importam e assombram, mas você sabe o que é mais importante nisso tudo.
Você coloca mais paixão do que imaginaria ser possível, em tudo aquilo que faz. Você provoca alguns sorrisos, de vez em quando. Você irradia alguns corações, algumas vezes também. Você encanta, pena não se deixar tocar muito. Você ganharia muito mais... Mas você ama, e no final das contas, é isto que importa.
Você compartilha sua história dizendo que tem medo, mas no final deixa sempre aquela mensagem positiva de que é possível.
Você acredita.
E, por acreditar, constrói castelos de flores no deserto.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A garota do copo d'água




“- Sabe a garota do copo d’água?
- Sei.
- Se parece distante…talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos… prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes…
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?“

- In Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ele espera no portão

O telefone toca e ela atende. Atende, porque não conhece o número. Não sabia que era ele. Se soubesse, talvez não tivesse atendido. "Ei, desce aqui", ele pede. Algo em sua voz a comove. Ela vai? Depois do dia difícil? Depois do choro engolido no trabalho? Depois das palavras tortas, um pouco atropeladas?
Sim, ela vai. Mas antes ela respira fundo, retira o lixo. Ela demora mais do que deveria. E ele espera. Espera sentado no muro do prédio, com aquela camisa cheirosa, com aquele olhar de quem espera ganhar um pouco mais do que ela oferece, aqueles olhos castanhos profundos, aquele sotaque carioca malandro, aquele amor sufocante que ela jamais tivera.
Ela desce de chinelo havaianas. Ela desce com o cabelo bagunçado, de óculos de grau. Ela desce com os olhos vermelhos e o rosto um pouco inchado.

Ele bate na porta com suas dores. Ela ouve sem abrir o coração.
Ele fala com sinceridade. Ela fecha os ouvidos para não entender.
Ele ali, pedindo para entrar. E ela tão distante... Querendo se proteger.

Para acalmar um coração

"Bichos em casa, da série.

Bicho estranho é o bicho homem. Havia um casal que se amava muito. Moravam numa casa antiga e velha. Por mais de uma vez a casa foi visitada por ratos. Não, eles não vinham à casa porque ela era velha, mas porque era casa e ficava, como quase todas as casas, no nível da rua. Não era um apartamento lá no alto. Era uma casa, e segundo informações colhidas pela mulher (era pesquisadora), ratos-entram-em-casas. Logo que soube disso a mulher foi tomada por dois afetos: no coração, um abatimento. Ai que horror, acordar à noite e encontrar um rato a andar pela mesa da cozinha! Na alma, uma determinação: ou ela acabava com os ratos ou os ratos acabavam com ela! Mais pesquisas. A solução? Gatos são os predadores naturais dos ratos. Bimba! Encheu-se a casa de gatos, ela passou a amá-los, não mais porque eram os predadores naturais dos ratos, mas porque eram gatos, esses seres adoráveis! Mas disso ficou um resquício no coração, uma sequela mesmo. A mulher tinha sobressaltos. Andava pela rua e se via uma pequena folha a mover-se com o vento, dava um pulo: um rato??!!! Era assim. Um susto ficou instalado no coração da mulher e a qualquer sussurro do mundo, pronto, ele virava um susto enorme! A casa velha nunca mais foi a mesma porque a mulher a habitava com esse susto no coração. Os gatos não eram predadores naturais para esse susto. Será que haveria os predadores de susto no coração? Nesse tempo, o casal apaixonado estava empenhado na construção de uma casa nova. Todo sábado eles visitavam a obra da casa nova. Para eles a obra era um sonho e um enigma! A casa nova, desejada, planejada, desenhada nos ares mil e uma vezes, agora se desenhava também nas pedras e no concreto. Mas aquilo era um enigma, eles entravam na obra, que mais parecia com escombros e não entendiam o que viam. Aqui é a sala! E o outro logo dizia: ah é? Pensei que fosse a cozinha... E essa parede aqui, será que vai ser o que? E ficavam horas nesse jogo de adivinhação. Era divertido, eram os sonhos, o amor, a vida que ia se fazendo naquelas perguntas sem respostas. Acontece que a mulher ia para o sonho em obras com o susto no coração. A coisa tinha se instalado com força naquele pobre coração. O marido, cheio de amor, percebia o susto mesmo quando ele estava silencioso, mesmo quando nenhuma folha se agitava no chão. O homem sabia o que estava no coração de sua amada. Notava que a mulher não visitava a obra da casa nova com o mesmo brilho nos olhos de outrora. Então, ele começou a falar-lhe ao coração, como só os homens apaixonados sabem fazer. Apontou para o terreno nos fundos da obra e disse: Aqui é tão fresco, né? Sente a brisa! É a mata, olha que linda! A mulher olhou a mata, sentiu a brisa e se enroscou nas doces palavras do seu amado. E ele seguiu em suas ponderações, percebendo, sem dúvida, que suas palavras acalmavam aquele coração aflito. Sabia que aqui não tem ratos?? Ele disse. Os olhos da mulher foram invadidos por uma luz solar: Ah é?? Aqui não tem ratos??? O sorriso já chegava aos lábios da mulher... mas ali naquele sorriso a pesquisadora veio sorrateira soprar uma pergunta. Pesquisadores são seres que não descansam nas soluções apressadas. Silêncio. A mulher-pesquisadora fez-se interrogação e disparou: E por que aqui não tem ratos ? O homem apaixonado respondeu na lata: Porque tem cobras!"

- Marcia Moraes, in Facebook.