terça-feira, 13 de junho de 2017

Tantas mortes existem

Eu quero o risco, não digo. Nem que seja a morte.

Cachorro sem dono, contaminação. Sagüi no ombro, sarna. Até quando esses remendos inventados resistirão à peste que se infiltra pelos rombos do nosso encontro? Como se lutássemos — só nós dois, sós os dois, sóis os dois — contra dois mil anos amontoados de mentiras e misérias, assassinatos e proibições. Dois mil anos de lama, meu amigo. Esse lixo atapetando as ruas que suportam nossos passos que nunca tiveram aonde ir.

Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz: — “Vamos embora para um lugar limpo. Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas nem conte a ninguém. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você. Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos. E não importam”. Mas seus livros, seus discos, quero perguntar, seus versos de rima rica? Mas meus livros, meus discos, meus versos de rima pobre? Não importa, não importa. Largue tudo. Venha comigo para qualquer outro lugar. Triunfo, Tenerife, Paramaribo, Yokohama. Agora, já. Peço e peço e não digo nada mas peço e peço diga, diga já, diga agora, diga assim. Você não diz nada. Você não me vê por trás do meu olho que vê. Você não me escuta por trás da minha boca que pede sem dizer, e eu bem sei. Você planeja partir para um país distante, sem mim, de onde muitos anos depois receberei a carta de um desconhecido com nome impronunciável anunciando a sua morte. Foi em abril, dirá, abril ou maio. Ou setembro, outubro. Os mais cruéis dos meses. Tanto faz, já não importará depois de tanto tempo, numa cidade remota.

Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés para contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã. Mas o poço não tem fundo, persiste sempre por trás, as cobras no fundo enleadas nas lanças. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consome cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe, mas foi só mais um engano? e quantos mais ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com esta fome na boca, beber um copo de leite, molhar plantas, jogar fora jornais, tirar o pó de livros, arrumar discos, olhar paredes, ligar-desligar a tevê, ouvir Mozart para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo, acender velas, saliva tua de ontem guardada na minha boca, trocar lençóis, fazer a cama, procurar a mancha da esperma tua nos lençóis usados, agora está feito e foda-se, nada vale a pena, puxar as cobertas, cobrir a cabeça, tudo vale a pena se a alma, você sabe, mas alma existe mesmo? e quem garante? e quem se importa? apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca, reinventar no escuro teu corpo moço de homem apertado contra meu corpo de homem moço também, apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonado, apavorado, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios, e amanhã não desisto: te procuro em outro corpo, juro que um dia eu encontro.

Não temos culpa, tentei. Tentamos.

- Caio Fernando Abreu, in Anotações sobre um amor urbano, Morangos Mofados.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

É isto um homem?

Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer “infinito” (p. 15).


Mas que cada um reflita sobre o significado que se encerra mesmo em nossos pequenos hábitos de todos os dias, em todos esses objetos nossos, que até o mendigo mais humilde possui: um lenço, uma velha carta, a fotografia de um ser amado. Essas coisas fazem parte de nós, são algo como os órgãos de nosso corpo; em nosso mundo é inconcebível pensar em perde-las, já que logo acharíamos outros objetos para substituir os velhos, outros que são nossos porque conservam e reavivam as nossas lembranças (p. 25).


In: LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

Carta aos que sobrevivem

É como se fosse um novo tempo. Tem uma de você antes daquilo. E tem outra depois. E tem aquilo que ficou ali no meio. Aqueles dias. Não dá para saber muito bem quantos foram, porque essa linha entre o antes e depois não é nítida. É alguma coisa que, de algum jeito que não é possível explicar muito bem, separa os tempos. E, às vezes, parece que alguma coisa de dentro de você ficou nesse tempo limítrofe, perdido e vazio. Vazio também ficou o seu espaço nesse presente-futuro. O futuro daquilo, e o seu presente, esquecido, distante e se distanciando cada dia mais. Conversávamos uma noite dessas... “Sobreviver a isso é pior do que foi todo o resto” e ela disse que “não, não pode ser”. Ela, a mesma pessoa que disse que eu talvez não tenha ainda a dimensão exata do que aconteceu. Não tenho. Dessa história só é possível me apropriar aos poucos. Na nossa história eu só posso ser uns poucos momentos de loucura diante de tanta lucidez. Antes não soubesse e não tivesse consciência de nada, mas me era claro como água. Os rostos – todos eles. Todos rodando infinitamente como não havia outro jeito de ser. Todos acima, em cima. Por semanas, eu só vi rostos rodando, e luzes, e salas brancas. E eu engoli o choro por tantas vezes que eu não podia mais contar. Nenhuma lágrima. Sabe o que é isso? Nenhuma. A primeira caiu tanto tempo depois, por uma besteira, que nem tinha sido por minha falta. Mesmo assim me desculpei, porque no dia anterior não tinha conseguido insistir, mesmo sabendo que tinha razão. Acho que bem no fundo, é porque a gente se sente um pouco responsável. Como se fosse alguma coisa que você pudesse prever. Só que não era, mesmo. Não tinha como ser. E por isso tanta luta entre essas duas sensações tão fortes dentro de si: a que lhe culpa e a que lhe perdoa – as duas dizem que você não se importava mais e por isso mereceu. Mas como isso é contraditório, não é? Porque você lutou tanto naquela noite. Você ainda se lembra, com tanta clareza, de quando viu sangue escorrendo pelo seu braço, sem saber se era seu, e depois a falta de ar e aquela voz de um estranho que você nunca soube que rosto tinha, falando com você, e você dizendo que não podia respirar. Pensando que não queria morrer - não assim, ali naquela calçada. Ou depois, numa sala branca com outras pessoas das quais você só lembra das vozes mexendo no seu corpo sem você conseguir expressar qualquer reação. Sua força só surgiu dessa fraqueza: você não queria morrer. Então, por que agora parece que não consegue viver? O que lhe permitiria continuar a insistir depois da vida ser lançada na contramão? É como naquele texto do Primo Levi*... “Como passar por isso e seguir a vida sem se debruçar pela escrita numa tentativa desesperada de elaborar o trauma e se livrar da culpa de ter sobrevivido?”. Sim, porque teve aquele menino, três dias depois de você, não? Ou aquela moça que passou no jornal na semana passada. E mais todos aqueles outros que lidaram com alguma mudança brusca de percurso antes de ti... Mas esqueça isso. E ainda assim vai ficar uma outra certeza. A de que eles não acreditavam em você. Aquelas primeiras pessoas, naquela noite, nenhuma delas acreditava em você. Faz parte também da sua culpa saber disso, que contrariou a todos. Na semana seguinte eles disseram: que bom ver você aqui [porque não achamos que a veríamos novamente] – era essa segunda parte que eles não queriam dizer, e que não precisavam, porque você sabia. Os sorrisos, sim, tão gentis e simpáticos, que a acolheram tão bem do início ao fim, aqueles sorrisos tinham um alívio, você conseguia ver, mas diziam que você não ia sobreviver.

E ainda assim, você suportou todos aqueles dias, com todas as suas implicações, e depois foi para casa. E nunca sentiu tanto amor. De todo mundo. Todos foram lhe visitar, levaram flores e chocolates, levaram histórias bonitas e abraços de afago, viajaram muitos quilômetros, ligaram, mandaram mensagens. Tanto amor que, às vezes, parece que você vai sufocar – oferecem um colar de joias com o qual, mais cedo ou mais tarde, você pode se enforcar. Tanta preocupação ultrapassando os limites do que você é capaz de receber e aceitar. Eles lhe ajudaram e então todos, todos nós, juntos, seguimos, lindinha. Seguimos. Seguiremos sempre. Até onde lhe for possível. Com todas as mudanças, rompimentos e lutos que você teve e ainda vai ter que elaborar. Do seu cabelo comprido, do seu corpo definido e da pele lisinha que até então só tinha as marcas que você tinha escolhido desenhar, da menina destemida que trocava histórias com mendigos e meninos de rua, da moça que comprou só Deus sabe quantos lanches para desconhecidos famintos, da garota que sorria simples e conversava com todo mundo. Não é mais você. Ela se foi. Ela faz parte daquele velho tempo da linha tênue que existe entre o antes e o depois, faz parte daquelas coisas, pensamentos, sensações, que ficaram nesse tempo limítrofe, perdido e vazio.

Quanto disso você vai conseguir recuperar?

* LEVI, Primo. É isto um homem? 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sobreviventes

Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso?


[...] ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.


Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?


[...] claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhava entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci.

As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo? Mato, não mato, atordoo minha sede com sapatinhos do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca.


Mas eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca.


[...] não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?


[...] que aconteça alguma coisa bem bonita para você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando.

Por Caio Ferando Abreu, in Morangos Mofados.

sábado, 3 de junho de 2017

Sobre ter a alma gordinha...




Aos 9 anos minha mãe me colocou para brincar de ser atriz. "Vai, experimenta, faz a primeira peça. Se você não gostar, depois sai". Tudo lá em casa era negociado assim. Algumas coisas eu entrava, fazia um tempo, saía. Do teatro nunca saí. Outras crianças saíram, minha mãe saiu, as aulas acabaram, o grupo também. Escolhi as aulas, mudei de cidade, entrei para outro grupo, o grupo acabou, criei um onde não existia. Deixei de lado para assumir outras responsabilidades, mas voltei. E chegou 2017 me dando uma chance de me dizer sim para viver de teatro, e antes de ter certeza de que era um sim, eu disse não. Talvez se fosse antes, talvez em outros tempos, talvez mais para frente. E quantas surpresas nos reservou esse 2017?! Pois é... Mas hoje é não. Talvez lentamente e dia a dia vá morrendo em mim o teatro a partir desse "não". Escolhi outras coisas. Talvez em outros tempos nos reencontremos para resolver mais alguma coisa dessa relação de amor-e-ódio que há entre a gente. Até mesmo o teatro pode morrer em mim algum dia e mesmo nunca mais voltar, mas não a atriz. Ah, essa é dura, não morre nunca. Sobrevive pelo meio das minhas outras profissões e ocupações. Sobrevive na psicóloga e na professora, sobrevive no jeito de olhar o mundo, as pessoas, a vida. Por ser artista é que me dou a possibilidade de ser médica, engenheira, bailarina e advogada. Me permito ser todas as escolhas que deixei para trás. Porque "a gente não se contenta com pouco. Tem alma gordinha".