terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Joana e as cores

Hoje ela saiu meio cansada. Joana quase nunca é daquelas pessoas animadas, que acordam cedo, fazem tudo, e saem de casa com um sorriso no rosto, cumprimentando todos os vizinhos que vão encontrando pelo caminho. Mas quase nunca é também daquelas que não abrem a boca nunca, andam cabisbaixas ou têm um desinteresse furtivo pelo mundo. Joana é mais ou menos. É na medida. Nem tudo aquilo, nem tudo isto. Mas hoje? Ah, hoje ela acordou com uma áurea diferente. Ela caminhou meio sem rumo e sequer parou para observar as vitrines dos óculos de sol. Dos vestidos. Dos anéis que ela nunca vai ter interesse em comprar. Ela não demonstrou qualquer interesse em ler os cartazes de promoção do hortifruti, nem perdeu a paciência com qualquer conversa sem graça de um ou outro grupo desses do whatsapp. Joana acordou displicente e assim seguiu o dia. Almoçou qualquer coisa sem graça – o que ela não lembra. Saiu de um restaurante medíocre porque pouco lhe interessava a fachada. Andou como tantas outras pessoas medíocres que ela encontra dia a dia enquanto caminha pela rua, sob o sol quente do meio dia. Transpira como todo mundo na saída do trabalho, nessa cidade em que não faz frio nunca. Alguma coisa mudou em Joana nos últimos dias. Ela perdeu o brilho, perdeu as cores, voltou a usar preto-branco-cinza. Sequer a vida lhe parece mais cinza. É preta. Preta como nunca antes vira.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desabafo

Eu tinha uns quatro ou cinco anos e essa é a lembrança mais antiga que eu tenho de você. Estávamos nós dois naquela reta de asfalto, imensa, na frente da casa da nona. Você me levava até a metade do caminho, segurando a bicicleta, e depois me soltava. Incentivava para fazer a volta, mas eu sempre descia antes de virar. E você me esperava com aquela tranquilidade, que era igual à do meu avô, a parte calma da família, andar, pequenininha, a empurrar a bicicleta menor ainda, as pernas gordinhas. Você tinha tanta paciência, tanto tempo. E onde aquilo foi parar na adolescência, pai? Como chegamos àquele lugar dos relacionamentos difíceis? Tudo aquilo foi porque eu me pareço tanto com você? Tudo porque o que eu mais detesto em mim eu vejo em você? A gente só aprendeu a ser gente com a minha saída de casa. Parecia que você não concordava com nada do que eu queria para mim, mas foi você quem sempre investiu nos meus sonhos. Se você não quisesse mesmo eu nunca teria chegado onde estou. Primeiro a saída para a faculdade. Você falava sobre medicina e eu queria a psicologia. Eu nem tentei medicina e ainda assim você me levou, você se lembra? Eu nem sabia se ia conseguir entrar na segunda chamada da Universidade, mas nós saímos de casa as 5h da manhã, eu, você e a mãe. Aquelas 4 horas de viagem foi o maior tempo que eu tinha passado ao seu lado até então. E na saída você me abraçou, meio sem jeito, porque a gente não sabia direito como é que se fazia aquilo. E eu fiquei. Você sempre preocupado, se eu precisava de mais dinheiro. Sua preocupação sempre era com o dinheiro, mas suspeitava que era porque você não sabia como perguntar se eu estava bem de outro jeito... Eu lembro que aos 19 anos foi pra você e para a minha mãe que eu escrevi uma carta, nunca entregue e que continua na caixinha das lembranças, no dia em que eu tomei todos os comprimidos de dramin que eu tinha em casa para nunca mais acordar. Depois disso, eu lembro da nona morrendo. E das suas palavras duras no dia em que me pegou na rodoviária para irmos para o hospital: se fosse pra ficar velho “assim” você preferia morrer novo. Minha lágrima silenciosa escorrendo ao seu lado. E sua mão no meu ombro no velório dela, quando eu entrei na igreja e perdi o chão. Depois a faculdade acabou e eu voltei. Lembro do seu orgulho com meu primeiro emprego, um dia depois de terminar a graduação. Lembro do seu sorriso na minha formatura, aquele que está no álbum de formatura. Um dos poucos que eu vi você dar na vida. Então veio o seu diagnóstico: transtorno bipolar. E eu não fazia ideia do que isso ia significar na vida da nossa família. Eu nunca vou saber exatamente tudo o que aconteceu em casa, com você, minha mãe e o Tai, durante os anos em que estive na faculdade. Eu só lidava com seus altos e baixos nas férias. Eu só te achava um cara autoritário demais. Eu só achava minha mãe submissa demais. Eu só ficava com raiva de vocês dois. O tempo todo. Da vida que a gente levava. A graduação em psicologia não me ensinou nada sobre você. E depois veio o mestrado. A seleção inteira você torcendo contra. Mas eu sei que no dia em que saiu o resultado e eu fui aprovada, e não tinha mais ninguém em casa para sorrir comigo, foi você que eu abracei. Eu pulei da escada direto para os seus braços e você me disse: então você vai para o Rio de Janeiro. Sim, pai. Eu ia. E você, contrariado ou não, me apoiou. Você me ajudou a ficar o primeiro mês aqui, sem bolsa, nem um emprego. Você sorriu novamente quando eu liguei dizendo que tinha conseguido um trabalho. E passou os dois anos seguintes perguntando quanto que eu ganhava, querendo perguntar se eu estava precisando de alguma coisa. Eu ficava irritada, mas meu coração te entendia. Foram com esses quase 2 mil km de distância que eu entendi que amava você. Do nosso jeito, mas com todo o meu coração. Foi quando eu chorei como uma criança quando assisti a “Fathers and Daughters” e foi a partir daí que as sessões de análise começaram a se repetir: eu precisava te pedir desculpas por tudo, por sempre, e eu queria você por perto. Mais e mais e mais. Eu queria correr atrás do nosso tempo perdido. E eu me esforcei tanto. Mas nessas ultimas férias você acabou com as minhas energias. Isso, entre nós, acabou com as minhas forças. Eu queria ter ficado mais, mas eu não podia. Minha saúde mental não me permitia. A sua inconstância me deixou exausta. Foram os dias mais difíceis da minha vida. Mais que quando a nona não lembrava mais de mim e quando ela finalmente se foi. Mais que todos os transtornos que tantos anos de bulimia e anorexia puderam me trazer. O seu olhar aguardando que eu te respondesse o que você tinha, como isso foi acontecer contigo, e eu precisar de todas as minhas forças só para conter o choro acabaram comigo. Ouvir você me dizer para ficar quieta, para parar de falar, nos dizer que não somos uma família unida, que a gente só queria o seu dinheiro; quando eu, meu irmão e a mãe juntamos todas as forças que tínhamos para manter você bem e o mais longe possível de qualquer coisa que pudesse te machucar. Se você tivesse visto o desespero nos olhos da mãe no dia em que você se fechou no quarto e tiramos a janela para te tirar de lá, a preocupação dela porque "tudo estava em cima do guarda-roupas"... Pai, a gente chamou o SAMU. E a polícia. Naquele dia. Para te ajudar. Porque nós queríamos você bem. Nós queríamos VOCÊ de volta. E de lá para cá 31 dias se passaram. Eu só vejo você pelos relatos da minha mãe. Eu só falo com você pelos nossos recados trocados. Eu só sei que é você porque no dia em que falei com a mãe sobre a entrevista de um processo seletivo que eu quero tanto e que ela passou meu áudio para você ouvir ela disse que você tinha acabado de acordar e me ouvido e dito que era para eu seguir a minha vida apesar dos porquês. Para continuar com o meu caminho porque você tinha certeza de que eu me importava e que você ia ficar bem. Nesse dia eu sabia que era você. Nem que fosse só por aqueles 5 minutos, mas era você de novo. Era VOCÊ dos treinos na bicicleta em meados dos anos 90. Era você daquela foto do meu aniversário de 1 aninho, ao seu lado, sentada na sua moto. Naquelas palavras eu conseguia ver você. Mas você se perde tão facilmente entre as nuvens. Você me deixa, você deixa a todos nós aqui, sozinhos, perdidos, sem saber o que fazer para te ter de novo em casa, do seu jeito. Eu sinto a sua falta. Eu sinto saudades de você. E esse é o pior tipo de saudade, aquele que a gente sente de quem continua aqui.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

De vazio

De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia. Os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvores ao redor do concreto: você se molda a partir das lacunas.

- Paula Hawkins, in A garota no trem, p. 114.

Sobre a tristeza

Mas acabei me tornando uma pessoa triste, e a tristeza cansa depois de um tempo, tanto para quem está triste como para todo mundo em volta.

- Paula Hawkins, in A garota no trem, p. 97-98.

Gritei.

Era uma recém-chegada. Pouco mais um mês que havia se mudado para a grande cidade e lhe fazem um convite para um festa. Foi de um cara que ela conheceu em uma reunião de colegiado da pós. Ele era aluno do doutorado. Encontraram-se pela primeira vez na segunda reunião de que participou. Ele sentou bem à sua frente e olhava muito, mas ela fingiu que não era com ela e deixou para lá. No entanto, quando saiu da sala o encontrou no corredor. Ele puxou assunto. Perguntou seu nome, se apresentou e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Disse que ia rolar uma festa no final de semana e se ela não gostaria de ir? Achou gentil, não queria ser mal educada, ele pareceu solícito. Agradeceu e trocaram telefones.

Ele ligou no final da semana e a chamou para o sábado. Disse que era formatura de uma turma de alunos da pós em que ele dava aula e que seria legal, perguntou se ela não queria ir. Acabou aceitando. Ela estava sozinha, recém-chegada. Tudo novo. E queria conhecer a cidade. Combinaram que ele a esperaria na Praça e chegou logo depois dela. Sozinho. Foram caminhando, fizemos um tour pelo Rio antigo e ela adorou. Chegaram à Lapa e ele displicentemente disse que os alunos não puderam ir e o jantar foi desmarcado, mas que podíam aproveitar, de toda forma. Ela achou estranho, mas não reclamou, nem disse que queria voltar. Ele perguntou se estava com fome e comeram uma pizza. Logo em seguida foram a outro bar, um que ele queria lhe mostrar. 

Ele já tinha bebido uma cerveja, e pediu uma tequila. Ela recusei novamente. Ficaram um pouco e ela já queria ir embora. Ele pediu para ficar mais um pouco e em uma brincadeira lhe beijou. Ela ficou assustada, perguntou o que é que ele estava fazendo. Mais uma vez disse que queria ir embora. Ele quis ir em outro bar, disse que após ela escolher e eles beberem alguma coisa lá voltariam. Ela escolheu um qualquer e ele insistiu para que provasse aquela tequila. Ela bebeu uma dose. Duas doses. Foi o suficiente. Sentia-se tonta e acabou ficando com ele. Intenso demais. Bem mais do que gostaria e estava acostumada. Nisso já eram três horas da manhã. Trocaram o ponto de ônibus pelo táxi. O endereço não era o dela. Julgou ter sido o dele e apenas avisou ao motorista para ir à sua rua primeiro. Foi quando ele disse que queria ficar mais um pouco com ela. Ela recusei. Ele insistiu. Muito, muito, muito. Ela disse não, muitas vezes, mas cansou. Foi vencida pelo cansaço. Apenas lhe disse: você não vai me fazer fazer o que eu não quiser? Ele ficou ofendido. Foram para um motel. Ela se sentia mal – por ter ido e por achar que se tinha ido tinha que fazer o que é que fosse para ser feito.
Quando saíram, pela manhã, ela estava um lixo. Disse a si mesma que não queria mais vê-lo. 

Viveram uma relação intensa de dominação, vitimismo e opressão, que ela sequer queria. Ele queria que ela acreditasse que era a vítima e a bruxa má da história. Ele queria que ela acreditasse que era culpada. Ele queria que ela acreditasse que foi porque quis. Ele queria que ela acreditasse que foi porque não disse não mais vezes. Ele queria que ela acreditasse que foi porque tinha bebido um pouco. Ele queria que ela acreditasse que foi porque achava que ele estava sendo legal e ela precisava pagar por aquilo. Ele queria que ela acreditasse que foi porque era uma idiota. Ele tem o dobro da idade dela. Talvez mais. E ela tem medo de encontra-lo na rua. Teve medo de que ele fizesse alguma coisa. Teve medo que ele contasse para todo mundo. Ele era o segundo cara com quem ela dormia na vida. Não usou camisinha e nem tomava anticoncepcional. E teve que lidar com aquilo sozinha, porque ele queria que ela acreditasse que a culpa era toda dela. Que fez porque quis.


Mas nunca foi. 

Ela calou seu grito, por medo de estar sozinha e ser tachada de louca.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sem mais.

"Porque você sente tanto amor, você tem medo de ser despejado."

sábado, 24 de setembro de 2016

Hei, corpo!

Hei, meu bem. Brigamos feio essa semana, hein? Pois é... Acho péssimo falar assim, mas parece que você não escuta o que eu tenho para dizer e então eu fico assim, lutando contra eu mesma. E olha eu aqui não querendo essa culpa para mim, te deixando com todas as responsabilidades dessa bagunça meio escusa que eu sempre crio nos finais infelizes. Enfim, acho que é para dizer, “me desculpe pelos excessos” e ainda assim te responsabilizar. Mais uma vez eu quis me convencer que daria conta de toda a angústia se, de algum jeito, tirasse você do jogo, já que eu não sou capaz de te fazer ser do jeito que eu quero. Não bastasse o teatro, não bastassem as corridas, a academia, peguei pesado com você no ballet e te disse coisas horríveis em pensamento na frente do espelho. Ei, Corpo, te olhei mais do que queria essa semana, e te olhei querendo ver o que eu seria capaz de amar em você, e não o que você é. Eu começo a me convencer de que não sou capaz de te amar como eu gostaria. E tenho me esforçado tanto, tanto. Eu sei que você sente. Valorize minhas tentativas, por favor. Se eu não conseguir convencer a mim mesma, quem eu seria capaz de convencer?

Talvez a grande questão seja o que é que não dá para aceitar em você? O que é isso que parte do intolerável de ser, a ponto de bagunçar a casa e toda a bagunça e a sujeira lá de fora, da rua, irem adentrando pelas portas e pelas janelas escancaradas, pelas frestas. Então me desculpe. Desculpe-me por toda essa exigência, por essas críticas vorazes de falta de empatia, justamente com você. Justamente eu, que tanto condeno essa incapacidade generalizada de enxergar o outro. Eu não te vejo. Eu nunca quis não te querer, pelo contrário eu queria te amar tanto que todo o resto pudesse ser esquecido, ou pelo menos relevado. Eu queria ser capaz de conviver com as suas imperfeições sensíveis só a mim mesma, queria poder lidar melhor com meus braços cheinhos e com minhas coxas musculosas. Queria saber dar conta da minha barriga nem reta nem definida, meio estranha, e que de tão indecisa não é nem uma coisa, nem outra.  Dos meus dedos pequenos, das minhas costas largas e do meu cabelo indefinido, dos meus olhos meio termo, que não são nem castanhos nem verdes, desse coração que me parece tão vazio e de uma cabeça cheia demais. Queria não precisar esconder você dos outros, duvidar tanto do que você é capaz. Queria aceitar os elogios como se aceita uma observação sobre um objeto qualquer. Que a gente nem ama, nem odeia, só simpatiza. Que é ainda pior que os dois primeiros. Quem simpatiza não se envolve com nada. Nem para se doar, nem para repudiar. Não sustento nenhuma tese sobre você. Simpatizar é pior que nada, é mais forte que todo asco que você poderia sentir por alguém que não merece nada. Sobre quem você não consegue ver nada. Além de uma imensa porção de “não insista, não vale a pena”.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

"Slackline"

Perdi um pouco a linha hoje. Não deu para segurar. Essa semana toda foi estranha... Muitas coisas acontecendo para pouca disposição de ficar me combatendo o tempo todo. Ontem eu não estava bem... O dia foi cheio e ao mesmo tempo foi pesado. Duas coisas chatas que aconteceram no trabalho me deixaram muito chateada, somado com as 6 aulas que eu dei ontem e tanta coisa se passando na minha cabeça sobre aquilo que eu tenho vivido foram demais para mim. Eu já tinha percebido que não estava legal... Minha irritação ao explicar pela terceira vez a mesma coisa para o meu irmão foi um sinal. Ele perguntando se íamos nos ver mais tarde e eu dizendo que poderíamos, mas que eu estava cansada. As horas passaram e nada. Quando veio uma resposta eu já estava até mesmo cansada demais para reclamar. Ele veio. É um “sexo casual” que se torna rotina. Incomoda. Eu várias vezes me disse “é por isso que eu não namoro, é por isso que eu não namoro”. Ontem eu me disse isso antes dele chegar. Mas ele veio. Eu disse que não estava a fim, que ontem o dia tinha sido pesado, que eu estava cansada, que eu não estava a fim. Ele insistiu. Em fechar a porta, em apagar a luz, que eu tirasse o casaco. Eu não quis. Eu queria que ele ficasse, mas queria também que me deixasse em paz. Queria algo que ele não tinha para me oferecer. E aí, o problema é de quem? Depois de muitas vezes dizendo, “sério, eu não estou legal” ele parou e olhou para mim. Disse que ficaria chateado, que isso não se fazia. Perguntou se eu sempre fazia as coisas só por mim, nunca pelos outros. Eu pedi desculpas. Ele voltou a me beijar. Eu estava chorando. Até que levantei. Fechei meu shorts. Ele disse que era hora de ir embora. Me falou que “só queria que a minha sexta fosse tão boa quanto a que ele tinha planejado para ele”. Não sei se estava mesmo chateado – ele brinca o tempo todo, com tudo. Disse que não era motivo eu ficar assim por causa de uns garotos babacas, que queria fazer meu dia valer a pena e que eu não deixava. Eu só queria poder chorar um pouco. Eu acho que tinha esse direito. “Você não pode deixar eles acabarem com seu dia”. Mas eles acabaram com meu dia. Eu fiquei mal, fiquei arrasada, me senti invadida. Ele dizia que entendia, mas mostrava que não.

“Você faz, sempre, as coisas só para você? Nunca para os outros?”.

Lembrei de uma paciente do CAPS, no estágio de psicopatologia. Ela surtou quando lhe perguntaram sobre uma boneca. E eu perdi a linha com uma pergunta. Não era sobre sexo. Não era sobre ceder ou não qualquer coisa para ele. Ele me mostrou o quanto eu sou egoísta, pior que todo mundo.

“Você faz, sempre, as coisas só para você? Nunca para os outros?”. Essa pergunta não me saiu mais da cabeça – continua batendo aqui como quem vai rachar uma parede. E eu acordei hoje mais certa do que nunca que devia ir embora. De novo. Sair daqui. Tentando me convencer de que ir para outro lugar resolveria. Quando na verdade eu sinto mesmo é que eu não sou para esse mundo.

Sobre o que fica depois de tudo

No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu.

- Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

sábado, 3 de setembro de 2016

De mais silêncio.

Ele perguntou... "Você nunca faz nada pelos outros, só por você?"

Silêncio.

sábado, 20 de agosto de 2016

Confissão

1. Adoro o silêncio. Sim, sou uma pessoa calada. E adoro ficar quieta. Não sou/estou deprimida, não preciso de ajuda. Só gosto muito de ficar sozinha e quieta.
2. Eu poderia ser vegana. Poderia mesmo. Quase não consumo produtos de origem animal, mas já faz um tempo que eu me livrei de tudo que me engessa e amarra. Vou continuar comendo chocolate. E comida japonesa. O choro é livre.
3. Tenho uma deficiência visual leve desde criança. Comecei a usar óculos com 7 anos de idade, mas a maioria das pessoas nem suspeita disso, porque faz muitos anos que uso lente de contato, praticamente o dia todo.
4. Tenho medo do escuro. Faz anos que perdi a coragem de assistir filme de terror sozinha. Apago a luz e vou de olhos fechados para a cama.
5. Sou canceriana, mas rompo com todo o protocolo. Não gosto de expressões públicas de afeto. Definitivamente, romances não têm nada a ver comigo. Sou meio durona mesmo.
6. Já tive muitos problemas com comida. Desenvolvi transtornos alimentares muito nova e não acredito em cura, embora me considere quase recuperada. De vez em quando ainda preciso encará-lo e dizer quem é que manda. Sou administradora de um grupo gigante - que cresce a cada dia! - para pessoas que lutam com T.A.s. Isso me deixa bastante triste.

Ao longe

Hoje a Baía de Guanabara estava coberta pela neblina. Eu só via a ponta dos navios e o topo dos prédios, ao longe.

E quando...?

Não me arrendo em nada da minha escolha. Se choro, não é por receio ou arrependimento, mas por pensar que, talvez, o que desejo e que penso que me fará feliz, não seja da ordem do possível.
Mas... E quando você não se ama e te comparam com alguém que você ama?

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Afeto

Ela disse...
"Sabe, a imagem que eu vejo é como se você tivesse um balãozinho assim, pendurado, em que você guarda todo o afeto que você recebe e já recebeu na sua vida. Só que esse balãozinho tem um buraquinho e ele vai saindo. Esse buraco já foi bem maior, já foi muito grande. Hoje é um buraquinho, bem pequenininho, mas o afeto ainda sai por ali e o balão nunca enche. É como se houvesse um monstrinho lá embaixo que só você vê. Ele está adormecido, mas o seu medo é que um dia ele acorde e lhe diga que tudo aquilo de mais horrível que você pensa sobre você seja verdade".

- Minha terapeuta. In Threatment by myself.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Das mazelas da vida...

A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido.

- Macbeth, in Macbeth, Shakespeare, p. 126.