quinta-feira, 25 de julho de 2019

Desacontecimentos

Eu nunca ficaria em uma casa por mais do que alguns anos, numa mudança sem fim. Para cada uma arrasto caixas que jamais abro, memórias que escapam do lacre e me assombram a noite. e um dia bato a porta e me vou para outra, com ainda mais caixas. De certo modo, sou uma moradora de rua com casas temporárias, carregando pela vida uma bagagem da qual não consigo ou não quero me livrar.
E talvez, nesse não lugar, entrecasas, eu tenha vivido na infância uma quase-morte. Literal, como fui, sou. Mais ainda antes das palavras. Ou talvez fosse apenas uma bactéria glutona e indiferente do jardim selvagem que me habitava, mas que eu desconhecia (p. 48).

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Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena eu tenho muita raiva - e quase nenhuma resignação. (...) Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar (p. 61).

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Escolhi viver sem fronteiras definidas, noções não me interessam, limites só me importam os da ética. Tenho um coração andarilho, um corpo mutante, uma mente transgênera. Sou irmã, mãe, filha, homem, cúmplice, bicho bicho, bicho humano, árvore, erva daninha, pedra, rio. Sou palavra em palavras. Mas o meu corpo que viveu e que amou e que gozou e que foi marcado, este tem um lugar (p. 69).

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Como todos que se sabem frágeis, Lili ocultava sua delicadeza para que não a adivinhassem quebrável (p. 89).

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A escrita foi se tornando dolorida. Dizia de uma criança que chutava o cimento. Que se sentia encurralada. Que questionava a existência de Deus. Que sangrava com a desigualdade do mundo. Tão calada sobre o essencial, eu agora gritava. Naqueles dias não importava se era bom ou ruim o que eu escrevia. Importava transformar a dor em marca. Forjar um corpo para além do corpo, na letra (p. 113).

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Aos poucos percebi que só poderia me colocar diante do outro, de todos os outros, como eu era. Quebrada. Com toda a integridade das minhas fraturas, das quais finalmente fiz um vitral. Uma quebrada diante de quebrados, esse é o pacto em meus encontros públicos. (...) "Eu quase me desmancho". Quase. Minha força é, agora eu sei, saber-me quebrada (p. 125).


- Eliane Brum, in Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras, 2017.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Viajei, viajamos.

Essa não é a primeira vez que eu junto uma porção de coisas e saio por aí. Não foi a primeira e certamente não será a última. Às vezes a viagem é mais longa e tem mais bagagem, não tem prazo para acabar, é uma tentativa de recomeço em um outro lugar. Um novo rumo profissional, uma nova organização pessoal. Outras vezes, porém, essa viagem exige menos, só uma mochila cheinha nas costas, um mesmo tênis para uma semana inteira - no final da viagem ele já tá sabendo dos caminhos sozinho -, o mesmo casaco em todas as fotos, a mesma cara meio durona porque eu sei que sou uma mulher viajando sozinha e nem sempre as pessoas vão facilitar qualquer coisa para mim. Às vezes, no começo, parece que essa viagem é uma tentativa de por alguns dias não precisar falar com ninguém, ficar quieta, sozinha. Sei que você tem desses dias também. E tudo bem, porque a gente é um pouco assim, não é? Humano. Que se cansa de atingir metas, de responder expectativas, de ser legal com todo mundo o tempo todo, de sustentar sorrisos que nem sempre são muito sinceros, já que o dia a dia anda doendo. Às vezes a gente quer dar um tempo da vida mesmo continuando na vida, entende? Nessa viagem eu não sabia bem o que eu queria - era mais como uma promessa, algo que eu disse que faria antes de ir embora, mais uma vez. Foi Lourival quem me explicou, o guia turístico que se ofereceu para me contar a história da Praça Minas Gerais de Mariana, e para quem eu paguei pelo passeio muito menos do que o justo e do que gostaria de ter pago. No finalzinho de seu trabalho, quando nos despedíamos, ele me disse “espero que você encontre o que veio buscar”. Ah, Lourival, seu danadinho! Você me pegou, porque, afinal, o que tinha ido eu buscar no caminho do ouro de Minas Gerais?

Eu não sabia bem o que tinha ido buscar, mas achei que devia guardar aquela pergunta em algum cantinho do coração, para retomar depois. Para tentar, fazer um esforço, responder. E, não sei, talvez devesse começar perguntando: você já se sentiu uma pessoa destruída? Porque hoje eu me sinto uma mulher destruída - e preciso de ao menos um pouquinho de compreensão para que possamos continuar.

Mas eu não sou apenas uma mulher destruída. Eu sou uma mulher destruída que juntou seus pedaços pelo chão e que agora coloca uma mochila nas costas e os cacos nos braços e sai à busca de um porto para se reconstruir. Foi aí que entrou essa viagem, que teve uma coisa meio mística. Falei pouco e degustei muito do que as paisagens, climas e pessoas estavam me dizendo sem me dizer. Mas também não me recusei a qualquer coisa. Talvez a melhor parte de viajar sozinha seja que a gente está muito mais aberto ao que pode acontecer. Foi assim que em Ouro Preto eu conheci o Valter, em frente à Igreja de São Francisco Xavier. Ele tinha suas delicadas obras expostas na murada. Era segunda-feira, bem cedinho, um frio danado. Encolhida dentro do meu poncho peruano passo por ele e o cumprimento. Ele puxa assunto, fala das suas obras. Eu, me aproximo, dou atenção, porque eu sei como é ser artista e não sentir que as pessoas estão muito interessadas na única coisa que você acha que sabe fazer bem. Eu me aproximo, paro, escuto. Teço um comentário ou outro. Ali decidi que ia comprar algum souvenir religioso para a minha mãe - eu não tinha comprado nada nessa viagem, porque não era para levar nada dela além de memórias, e eu decidi ir em um momento financeiro bastante delicado também. Mas eu queria fazer aquilo pelo Valter e pelo trabalho dele. Eu acho que ele merecia. O problema foi que de novo eu senti que me saí melhor naquela nossa pequena relação do que ele. Ele me vendeu um lindo relógio com desenhos de Ouro Preto esculpido em pedra sabão - achei que ia ficar bem na cozinha da minha mãe, mais do que mais um santo, já que eu tinha dado outros de presente do México para ela. Mas, junto com o relógio, eu levei para casa um afago no coração. Valter disse que eu era daquelas pessoas que eram difíceis de aparecer, mas que de vez em quando aparecem. Simples desse jeito. Eu tive vontade de chorar. Mas engoli o choro e então lhe disse que esperava que a gente encontrasse gente que nos fizesse sentir assim com frequência, para que não deixássemos de acreditar na vida. Eu fui mais sincera com ele do que costumo ser com desconhecidos. E então lembrei de uma conversa com uma amiga na semana anterior, na qual eu dizia que gente menos “estudada” vivia melhor que nós, pseudo intelectuais, acadêmicos donos de um suposto saber, e complexificadores da vida. Eu percebo também que ultimamente eu tenho me sentido especialmente atraída pelas pessoas simples. Sem construções de discurso complicadas, cheias das sintaxes, das metáforas. Gente que diz o que quer dizer de forma direta, sem rodeios, mas com delicadeza. Gente assertiva, sabe? Eu não acho que sou mais uma pessoa assim. Esses dias me peguei dizendo em análise que havia trocado meu antigo blog de poesia-simples-existencial pela escrita para a academia, “esse escrever difícil porque não é mesmo para ninguém entender” (sic.). E é engraçado porque quanto menos eu acho que me aproximo da pessoa que eu gostaria ou me orgulharia de ser, mais eu invisto nisso. Mais eu me esforço - sim! Em ser quem eu não quero ser! Não é por ingenuidade. Eu faço análise, eu me penso, me coloco em cheque, me tiro com frequência da zona de conforto, me abro para experiências novas sem garantias de que serão prazeirosas. Eu lido também com o desprazer. Eu dou suporte para ele porque sei que é importante de ser vivido também, para que possa aprender mais sobre mim, entender os meus porquês. E no meio disso tudo, eu ainda acho que invisto muito em quem eu não quero ser? E se eu não largar desse osso porque na verdade é quem eu quero mesmo ser? Sei que é difícil de entender porque é também de se explicar. Nem sempre a gente é capaz de se explicar. Nem sempre a gente é tudo aquilo que sonhou pelos sonhos dos outros, justamente porque não eram nossos, eram dos outros - e só com muita dificuldade a gente entende que precisa entender isso. Mas, aos poucos a gente também vai aprendendo a se respeitar e a respeitar o tempo que precisa para aprender. Como me ensinou o Valter, a gente entende que às vezes a gente demora para se parecer de verdade com quem é, mas que mais cedo ou mais tarde esse eu de verdade aparece e é ao mesmo tempo a coisa mais bonita e a coisa mais simples que já se viu. E se não der para descobrir sozinho, tudo bem também, porque sempre tem alguém para ajudar. Além do Valter, dessa vez eu tive também uma amiga muito querida que várias vezes já foi meu pé no chão, quando eu voo alto demais e não consigo ou não quero voltar. Embora a ache tão jovem, essa menina tem uma sensibilidade do tamanho do mundo - deve ser a alma de artista - e me fez entender que dessa vez, enquanto eu me perdia entre as ladeiras de casas coloridas de São João Del-Rei, na verdade eu me encontrava - “talitarteando” por aí.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Seguir no caminho ou Todo dia um 7 a 1

De novo me perguntaram sobre como eu estou. De novo eu respondi com displicência. Que não é nada, que é cansaço. Que é só tédio, ou qualquer coisa assim. Me sinto perdendo o repertório das palavras. Será que, se eu parar de falar, vai levar muito tempo para perceberem? Afinal, sequer tem algo de novo nos silêncios. Não tem nada de novo na apatia. Eu sequer consigo chorar.

Hoje teve algo de novo porque havia um certo incômodo, uma ponta de ansiedade. Não aquela daqueles dias, mas tem algo mexendo, sabe? Tem algo tentando sair, e é bem quando eu acho que devia parar com a análise, dar um tempo, seguir sozinha, sabe? Essa resistência a mudar é sempre uma tentativa de boicote, de sair do lugar de quem não se responsabiliza pelo que sabe sobre si. Porque eu sei, mas queria não saber. Porque eu vejo e queria não ver. Eu me encontrei perdida nos meus silêncios e eu tive medo de me seguir.

Eu queria me rasgar, eu queria me jogar em um canto e desaparecer. Eu queria sumir - será que se eu ficar aqui quietinha de repente eu sumo? Eu queria gritar. Eu tenho vontade de correr e de gritar, faz dias. Eu queria me esquecer de quem eu sou - se eu me perguntar muito, como Clarice, eu esqueço? Queria ser menos forte, pra desistir mais cedo. Queria ter menos medo pra jogar mais alto e perder com mais intensidade - queria que fosse uma perda dessas, de 7x1, sabe? Dessas que não adianta mais fazer nada, a não ser não deixar piorar muito. Mas se está tão ruim, um a mais, um a menos, que diferença faz? A gente vai continuar - e até quando?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dois anos e o que há para comemorar?

São dois anos. Dois anos e haviam me dito que eu poderia comemorar, como se comemoram as festas de aniversário, sabe? Ano passado a gente fez bolo, apagou velinha, se abraçou e todo mundo chorou sozinho, cada um no seu quarto, no final do dia. Foi bonito, mas na verdade não tem muito cara de aniversário. Com certeza tem uma certa marca, algo que fica desse um ano inteirinho que passou. As conquistas: a volta para Niterói, a dor zero, o parar de usar medicação pra dormir e pra não se sentir o tempo todo triste, o chegar um pouquinho mais tarde da noite sozinha em casa, o ritmo quase totalmente normal. Mas sabe o nó na garganta? Continua. Esses dois anos me deram medidas suficientes para entender que eu não tenho nenhuma consequência direta do que aconteceu, que aliás, até indiretamente é difícil de pensar no que eu ainda estou perdendo. Só tem esse nó na garganta. É só esse nó. Só que o problema é que de vez em quando ele fica apertado demais, ele cria umas amarras que parece que nunca mais vai soltar. Ele aperta principalmente com os sonhos, esses suspiros do inconsciente que vêm nas noites que antecipadamente já dava para sentir que não seriam tranquilas. E aí, quando enrosca desse jeito, é bem difícil de soltar. Dá vontade de sair gritando que ainda tá doendo e que não é pouco. Que ainda tá dolorido que nem doía na pele da primeira vez. A diferença é que a gente fica nesse ciclo louco de se repetir e o que dói é no fundinho do coração, porque ele não se acalma, ele fica chorando sem parar, e sabe quando você vê que alguém que você gosta muito está muito triste e você quer fazer ele se sentir bem? E aí você se esforça o máximo que pode para ele ficar bem, tenta e tenta, insiste até você também ficar triste? É um pouco disso. O coração não consegue ficar quietinho, ele também quer gritar e chorar cada vez mais e mais forte, pra lembrar que ele tá ali e que ele precisa que olhem para ele. Ele quer colo, mas nem sempre você consegue dar, porque são muitas coisas para se fazer ao mesmo tempo, e a vida tá cobrando atenção para as outras coisas também, então você tem que olhar pra ele, olhar de verdade e com atenção para aquela carinha sentida, para aquela dor que não cessa e dizer que ele precisa esperar mais um pouquinho, que tem que ter paciência, que tem que ser paciente. Dois anos e sobre isso nada mudou. Sobre isso, ainda fazemos ele esperar, e nada podemos comemorar.