terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Velhos sentimentos

Naquela noite encostou a cabeça no travesseiro e fechou seus olhos. Junto às lágrimas, as velhas perguntas voltam a perturbar. Novamente seus pensamentos voltaram para uma tarde de verão que ela pensava já ter afastado da memória, uma tarde que por anos infindáveis ficou esquecida. Não que a tivesse abandonado de vez, porque sabia, por todos os seus dias, que algo estava errado, que uma parte de si ainda faltava, mas isto não a incomodava por não saber exatamente o que era e por não ter curiosidade (ou coragem) suficiente para buscar. Porém, quando tudo voltou, quando tudo finalmente fez o saco velho repleto de mentiras, culpas e desculpas se rasgar em mil pedaços que voaram soltos por aí, ela precisou encarar a realidade e jogar o jogo jogado por ele tempos atrás, quando ainda era jovem demais para entender como as regras o favoreciam e velha demais para, mais tarde, não saber do que se tratara. São velhos sentimentos, mortos e enterrados que voltam a assombrar, mesmo após um dia em que, num momento de fraqueza e de sinceridade extremas, se sentira acolhida como uma menina e seu urso e dividiu com um outro alguém palavras que outrora não ousava dividir nem consigo mesma, mas que entendia que o silêncio perpetuava um jogo que não era mais apenas seu.

Parecia outra coisa,


mas talvez ela não caia.

No cair da noite... Duas cores.

O negro e o branco. Assim se pinta a noite que vai caindo... Solidão e saudade me batem à porta e pedem para ficar. Eu deixo. Deixo, porque não tenho companhia nenhuma e sempre é bom receber alguém com um som diferente de nossos passos. Elas me perguntam como estou, como sou... E digo que no momento não sou nada. Olho pela janela, o céu ainda é estranhamente claro por sobre as árvores, mesmo que o sol já tenha se ido há tempos. Ainda me deixo fungar e assoar o nariz na frente de minhas peculiares visitas, mesmo que isto demonstre uma notada falta de consideração por minhas hóspedes, mesmo que corra o risco de que não voltem mais. Mas sei que não hão de abandonar-me jamais, porque também sou a única companhia que têm, sou a única que não sorri, a única que não ama e não conversa. Mesmo servindo chá com bolachinhas para minhas hóspedes, não ousei olhá-las nos olhos, nem emitir qualquer som que não se parecesse com um leve sussuro.

Um telefonema

E essa vida é mesmo como uma selva imensa na qual vamos nos perdendo cotidianamente, cada vez seguindo mais para dentro da mata, mas sempre acreditando que não estamos perdidos... Que estamos apenas seguindo, sabendo perfeitamente para onde. Até que os dias passem, noites caiam e saiam; e aí, quando nos damos conta, não sabemos nem mais se estamos subindo ou descendo. E é precisamente neste ponto que gritamos por socorro! É o momento no qual todos se apegam ao seu Deus ou aos velhos amigos que deixamos para trás após o colégio, que se foram com a faculdade. Embora tenhamos passado longe por tempo demais, alguns ainda nos reconhecem e acolhem... Nos aceitam e telefonam todas as noites, até que as coisas fiquem bem, mesmo que seja um telefonema curto, quase mudo e com a voz fraca:
- Hã... Oi! Só liguei para você saber que continuo na linha.

A pessoa errada

O que chamamos de pessoa certa, na verdade quer dizer "pessoa errada". É, porque afinal, no que é que ela está certa?! Ela está sempre no lugar errado, na hora errada e com pessoa errada... Jamais está no lugar certo, jamais está onde deveria estar, que é aqui do meu lado. Quando passamos a vida toda esperando pela pessoa certa, na realidade é porque esperamos a vida toda pela pessoa errada, mas que apesar de estar sempre errada, ainda poderá nos fazer feliz, poderá arrancar sorrisos sinceros e palavras justas. E, no final das contas, é muito mais do que esperávamos que a pessoa certa fosse.